POLÍTICA NACIONAL
Debatedoras defendem trabalho integrado de observatórios da mulher
Publicado em
2 de julho de 2025por
Da Redação
A atuação integrada dos observatórios da mulher pode garantir não só informações para subsidiar políticas públicas, mas também a perenidade dos próprios observatórios. A conclusão é das debatedoras que participaram, nesta quarta-feira (2), de audiência pública na Comissão de Assuntos Sociais (CAS). O encontro foi realizado para discutir a proposta de criação da Rede Nacional de Observatórios da Mulher.
A iniciativa busca integrar e fortalecer esforços dedicados à análise de dados, à elaboração de diagnósticos e à qualificação de políticas públicas voltadas à promoção da equidade de gênero e ao enfrentamento da violência contra as mulheres.
A audiência, solicitada pela senadora Jussara Lima (PSD-PI) por meio de um requerimento (REQ 53/2025-CAS), faz parte da programação do Encontro Nacional de Observatórios da Mulher, marcado para quinta-feira (3), no Senado.
A proposta da Rede Nacional de Observatórios da Mulher foi construída a partir da sugestão feita pela senadora Augusta Brito (PT-CE) quando ela presidiu a Comissão Permanente Mista de Combate à Violência contra a Mulher. A partir da sugestão, o Observatório da Mulher contra a Violência do Senado (OMV) buscou mapear os observatórios voltados ao tema, identificar experiências relevantes e apontar as principais carências e dificuldades técnicas e operacionais para viabilizar a estruturação da rede.
— Hoje damos mais um passo em direção à efetiva equidade, uma perspectiva ainda distante que só se concretizará com o resultado de nosso empenho incansável dia após dia. (…) Que a gente possa se fortalecer e não dividir as forças. Acredito que esta é a melhor forma de conduzir para que dê certo: se unir e não dividir — disse a senadora ao tratar da proposta de criação da rede.
A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, ressaltou que informação é poder e, justamente por isso, governos não democráticos preferem que a população não tenha acesso às informações. A ministra afirmou que, para que as políticas públicas sejam efetivas e consigam chegar a quem mais precisa, é essencial ter cada vez mais dados consolidados.
— A gente aposta muito na criação de uma rede nacional de observatórios que enfim cumpra a atribuição de estudar, conhecer, ter domínio e dar facilidade ao entendimento, porque às vezes as pessoas dizem: “Eu quero fazer, mas eu não sei”. É muito difícil a gente manter os dados atualizados, as informações, as análises, fazer as comparações e ter os indicadores — declarou Márcia Lopes, que colocou o ministério à disposição para colaborar com a iniciativa.
União
A líder da bancada feminina no Senado, Leila Barros (PDT-DF), afirmou que nenhuma política pública pode ser eficaz se não for ancorada em dados, diagnósticos precisos e conhecimento da realidade local. Essa, observou a senadora, é a missão dos observatórios da mulher. E a integração entre eles, ressaltou Leila, representa uma oportunidade histórica.
— É um passo importante na construção de políticas públicas eficazes voltadas à promoção dos direitos das mulheres, ao enfrentamento da violência de gênero e à consolidação da igualdade entre homens e mulheres em nosso país. A criação da Rede Nacional de Observatórios da Mulher é uma proposta estratégica e ousada, que nasce da escuta qualificada e da articulação entre diferentes esferas do poder público e da sociedade civil — salientou a líder.
Ilana Trombka, diretora-geral do Senado, lembrou que a Casa é fundadora de iniciativas como a Rede Equidade, que reúne mais de 40 instituições para a implementação de ações conjuntas relacionadas ao tema inclusão e diversidade, com foco em gênero e raça. Para ela, trabalhar de maneira integrada é o caminho para que as mulheres conquistem espaços que muitas vezes são negados a elas.
— Formar redes é a melhor estratégia que nós temos para ampliar não só os nossos trabalhos, mas também o nosso espaço de poder. (…) Nós temos de ser claros e falar: não é dado às mulheres o mesmo espaço nas instâncias de poder que aos homens; e não é só na área pública, é na área privada também. Fazer redes é a melhor forma que nós temos para tentar chegar a esses espaços.
Proposta
Maria Teresa Firmino Prado Mauro, coordenadora do Observatório da Mulher contra a Violência, órgão do Senado, apresentou a proposta de criação da rede de observatórios, construída a partir da sugestão da senadora Augusta Brito. O levantamento que faz parte dessa proposta lista 54 observatórios, com a descrição das características e dos produtos feitos por cada um deles.
Essas informações estão reunidas em uma plataforma digital, que tem o objetivo de agrupar dados, facilitar conexões e dar visibilidade às iniciativas que atuam com dados sobre a realidade das mulheres.
— A ideia é esta: juntar forças, ter num único espaço os trabalhos dos observatórios e construir algo que seja relevante, que consiga trazer visibilidade a trabalhos maravilhosos que às vezes ficam com a divulgação muito restrita — disse Maria Teresa.
Também foi elaborado o Protocolo de Criação de Observatórios da Mulher contra a Violência, em parceria com o Observatório Mulher Teresina. Esse observatório foi representado na reunião pela sua coordenadora, Suzianne Santos, que ressaltou a necessidade de padrões para que a coleta de dados seja feita da maneira correta.
Acesso à Justiça
Para Rafaella Mikos Passos, assessora especial de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher da Defensoria Pública da União, a criação de novos observatórios simboliza um compromisso das instituições com a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.
— Nossa experiência nos ensina que o enfrentamento eficaz da violência contra as mulheres é possível por meio de redes robustas de parcerias (…). Esse trabalho em conjunto das instituições é muito mais eficiente, mais contundente e alcança melhores resultados. Nenhuma instituição isoladamente vai conseguir dar conta dessa complexidade — argumentou ela, que se colocou à disposição para trabalhar na construção de uma rede nacional.
Rafaela também relatou o esforço para preparar a defensoria a identificar situações de violência contra a mulher, mesmo quando a razão para que essa mulher busque a defensoria seja outra demanda.
A presidente do Superior Tribunal Militar (STM), ministra Maria Elizabeth Rocha, alertou para a tentativa de acabar com a obrigatoriedade de que o Judiciário adote o Protocolo para Julgamento com Perspectiva de Gênero.
Essa ferramenta busca garantir que as desigualdades históricas entre homens e mulheres sejam consideradas nos julgamentos, especialmente em casos de família, sucessões e violência de gênero. A tentativa de sustar essa obrigatoriedade está prevista no PDL 89/2023, projeto de decreto legislativo que está em análise na Câmara dos Deputados.
— Esse protocolo serve precisamente para garantir um ambiente seguro durante o trâmite processual, serve para obstar que o Poder Judiciário avilte ainda mais pessoas em profundo sofrimento, vítimas que foram de agravos e crimes contra elas perpetrados. (…). Que, unidas, sejamos a voz uníssona de um novo tempo, em que os espaços públicos não semeiem e nem permitam iniquidades — declarou a ministra.
Observatórios de gênero
Durante a audiência, outras debatedoras apresentaram observatórios já existentes, que consolidam informações sob diferentes perspectivas ligadas às questões de gênero.
O Observatório Brasil da Igualdade de Gênero do Ministério das Mulheres foi apresentado pela coordenadora-geral da iniciativa, Camila Rocha Firmino. Criado em 2009, o observatório monitora indicadores de gênero e de promoção e garantia de direitos das mulheres. A intenção é servir de suporte à tomada de decisões nas políticas públicas para as mulheres no Brasil e promover o acesso à informação sobre igualdade de gênero e políticas para as mulheres para o fortalecimento da participação social.
O Observatório Nacional da Mulher na Política foi apresentado por sua coordenadora de pesquisas, Ana Claudia Oliveira. O observatório é vinculado à Secretaria da Mulher da Câmara dos Deputados, em parceria com a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher. Os eixos de pesquisa são atuação política e representatividade, violência política contra a mulher e atuação partidária e processos eleitorais.
Também foram apresentados o Observatório Caleidoscópio/Unicamp, pela pesquisadora Mirlene Simões, e o Observatório Interseccional de Gênero de Minas Gerais (Observa Minas), pela pesquisadora Nícia de Souza, da Fundação João Pinheiro. Para Nícia, esse tipo de iniciativa muitas vezes está sujeito a vulnerabilidades e descontinuidades institucionais, mas o trabalho em rede pode fortalecer a atuação.
— Essa construção de uma rede pode nos ajudar a compartilhar metodologias, fortalecer as instituições, ampliar o nosso alcance e principalmente garantir essa permanência — frisou ela.
Ao final das apresentações, a senadora Augusta Brito enfatizou que a audiência vai possibilitar o surgimento de novas ideias e o fortalecimento do trabalho pela rede. A senadora reiterou que vai se empenhar para conhecer os dados fornecidos por todos os observatórios apresentados.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
POLÍTICA NACIONAL
Levantamento inédito do DataSenado confirma violência contra trans e travestis
Published
1 hora agoon
23 de junho de 2026By
Da Redação
Agressões, constrangimentos em espaços coletivos, discriminação no mercado de trabalho, problemas no atendimento em órgãos públicos e violência sexual. Essas são algumas das situações relatadas por mulheres transexuais e travestis entrevistadas na 11ª edição da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, do DataSenado. O levantamento mostra que 56% das entrevistadas passaram por situações de violência nos últimos 12 meses.
Conduzida entre maio e julho de 2025 pelo DataSenado, em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência (OMV), a edição mais recente da pesquisa traz um recorte inédito, específico sobre as mulheres trans. Das 43 entrevistadas que se identificaram como trans ou travestis, 40% relataram agressões verbais associadas diretamente à sua identidade de gênero. Outras 17% disseram terem sido agredidas fisicamente e 12% sofreram violência sexual no último ano.
Rolf Regehr, psicólogo e chefe do serviço de pesquisa e análise do DataSenado, ressalva que a falta de dados populacionais oficiais sobre mulheres trans e travestis no Brasil restringe análises com maior precisão estatística. Mas os dados desse novo recorte da pesquisa, explica, ajudam a entender aspectos como a naturalização das violências sofridas, detectada nas entrevistas.
— [Os resultados da pesquisa] são achados exploratórios sobre o grupo entrevistado. A pesquisa, nesse sentido, procura contribuir para uma compreensão mais precisa de aspectos relevantes de suas vivências, como nesse caso, a recorrência e naturalização das violências sofridas — diz Regehr.
Naturalização das agressões
Para o psicólogo, a naturalização das agressões no cotidiano fica clara quando muitas das situações enfrentadas diariamente por essas mulheres sequer são identificadas prontamente como violência. Apenas 4% das entrevistadas afirmaram, inicialmente, ter sofrido violência de gênero. Depois, quando questionadas situações específicas, 56% delas afirmaram ter passado por algumas delas no último ano.

Foi o medo de passar por situações como essas que fez a escritora Rafaela Miranda, de 37 anos, parar de frequentar certos espaços públicos, como banheiros coletivos.
— Eu não frequento de forma alguma. Prefiro ficar me segurando, porque sei que se eu entrar num banheiro público as pessoas vão começar a olhar de forma diferente, já que não tenho “passabilidade” — diz Rafaela, usando o termo que se refere ao reconhecimento social das mulheres trans como mulheres.
A violência de gênero, no caso de Rafaela, também se mostra no tratamento por pronomes masculinos, mesmo com todos os documentos retificados e a identificação como mulher trans.
De acordo com a antropóloga Beatriz Accioly, essas exclusões, pela frequência com que acontecem, podem acabar sendo naturalizadas e fazer com que mulheres trans entendam que determinados espaços não são feitos para elas.
— Quando uma mulher é hostilizada na rua, mal atendida em um serviço público ou tem sua identidade constantemente questionada, ela recebe a mensagem de que aquele espaço não foi feito para ela. Esses episódios produzem medo, restringem a circulação e afetam o acesso a direitos — explicou ao DataSenado Beatriz, que é gerente de políticas públicas pelo Fim da Violência Contra Mulheres no Instituto Natura, parceiro no Mapa Nacional da Violência de Gênero.
Mesmo nos serviços públicos, as mulheres trans relatam episódios de mau atendimento e transfobia. É o caso de uma das mulheres entrevistadas pela pesquisa, moradora do Distrito Federal, que relatou dificuldade ao procurar serviços de saúde: “Só por eu falar meu nome de mulher, né? Ele falava meu nome de homem, e eu pedindo pra falar meu nome de mulher, e não queriam me atender como mulher.”
Tornar essas experiências visíveis, explica Vitória Régia da Silva, diretora executiva da organização Gênero e Número — também parceira do Senado no mapa —, é um passo fundamental para ampliar a produção de evidências, fortalecer políticas de proteção e garantir que mulheres trans e travestis sejam incluídas no debate público sobre enfrentamento à violência de gênero.
Violência Doméstica
Das entrevistadas, 47% disseram já ter sofrido violência doméstica. Para 70% das vítimas, a violência afetou o convívio com outras pessoas e para 55%, a rotina diária. A vida profissional (45%) e os estudos (35%) também são prejudicados pela violência, que é, na maior parte das vezes, psicológica.

Mercado de trabalho
No mercado de trabalho, a exclusão das mulheres trans e travestis também fica clara. Apesar de ser qualificada, Rafaela tem dificuldade de conseguir emprego e relata que o comportamento dos recrutadores muitas vezes muda quando ela se identifica como uma mulher trans.
— Mandei um currículo para uma empresa. A pessoa começou conversar comigo pelo WhatsApp, me tratou bem, elogiou meu currículo. No final da entrevista, eu sempre aviso que sou transexual, para não ter o constrangimento de chegar no dia da entrevista presencial e ficarem me tratando diferente, né? Assim que eu falei que era transexual, a empresa simplesmente parou de me responder — lamenta.
A dificuldade relatada por Rafaela aparece nos resultados da pesquisa, com 26% das entrevistadas tendo declarado que não conseguem se sustentar. “Tenho três formações, chego pra fazer entrevista vejo no olhar do entrevistador que não vai me chamar”, disse uma das mulheres entrevistadas, do Paraná.
— Então o que está em avaliação não é a competência, não é a formação, não é o quanto a pessoa estudou, é ela ser trans. São pessoas capacitadas em alguma profissão, mas que não conseguem emprego, ou só conseguem com renda muito baixa — disse Rolf ao comentar o resultado da pesquisa.
Das mulheres ouvidas no levantamento, 51% se declararam ocupadas e 42% estão fora da força de trabalho. Outras 7% estão desocupadas. Em relação à renda, 56% das mulheres ganham menos que dois salários mínimos, 19% ganham entre dois e seis salários mínimos e 14%, acima de seis. Outras 12% não quiseram ou souberam informar.
Copeira do Senado há dois anos, Scarlety Pereira só teve a primeira carteira de trabalho assinada aos 30 anos. Para ela, é preciso dar oportunidades para que as mulheres trans possam deixar o rótulo de que nasceram para servir, inclusive na prostituição.
— O Senado me deu oportunidade de estudar. Hoje eu faço jornalismo e secretariado. Graças a Deus, esse trabalho me deu a oportunidade de aprender e de poder me colocar em um lugar melhor na sociedade — comemora.
Mapa Nacional
O recorte sobre mulheres trans e travestis estará disponível, a partir de quinta-feira (25), na página “Pesquisa Nacional” do Mapa Nacional da Violência de Gênero, uma parceria entre o Senado, o Instituto Natura e a Gênero e Número, que reuniram seus projetos em uma plataforma pública e interativa com dados sobre a violência de gênero no Brasil.
Criado em 2016 pelo Senado, o Observatório da Mulher contra a Violência reúne, analisa e divulga dados sobre a violência de gênero no Brasil. Em parceria com o Instituto DataSenado, produz e integra informações para subsidiar políticas públicas e alimentar o intercâmbio entre as principais instituições envolvidas no enfrentamento à violência contra mulheres.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
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