POLÍTICA NACIONAL
Especialistas alertam sobre riscos das doenças cardiovasculares em mulheres
Publicado em
14 de maio de 2025por
Da Redação
As doenças cardiovasculares nas mulheres são negligenciadas. O alerta é de especialistas que participaram, nesta quarta-feira (14), de audiência pública no Senado. A audiência, feita em conjunto pelas comissões de Assuntos Sociais (CAS) e de Direitos Humanos (CDH), marcou o Dia Nacional da Conscientização das Doenças Cardiovasculares na Mulher, comemorado nesta quarta.
O pedido para a audiência (REQ 5/2025 – CAS) foi feito pela senadora Damares Alves (Republicanos-DF), presidente da CDH. No requerimento, ela lembrou que a quantidade de mortes em razão dessas doenças representa mais do que o dobro das mortes por todos os tipos de câncer. Para a senadora, a audiência é uma oportunidade de conscientizar mais pessoas sobre o tema.
— Informação tem que ser compartilhada, informação salva vidas. Essa é uma audiência que começa aqui, mas não acaba, vai se eternizar. Eu acredito que nós vamos trazer, por meio dessa audiência, uma grande colaboração para o Brasil — disse a senadora.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), as doenças cardiovasculares respondem por um terço das mortes de mulheres no mundo, com 8,5 milhões de óbitos por ano, ou seja, mais de 23 mil por dia. No Brasil, estima-se que mais de 30% das mortes de mulheres são causadas pelas doenças cardiovasculares. O índice supera o de mortes por câncer de mama e de colo do útero.
Alerta
“Mulheres também infartam”. Com essa frase, a diretora do Departamento de Cardiologia da Mulher da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), Viviana Lemke, alertou para algo que pode parecer óbvio, mas que muitas vezes não é lembrado. De acordo com a especialista, a mortalidade das mulheres é o dobro da registrada nos homens em caso de infarto agudo do miocárdio, o músculo do coração.
Um dos fatores para que isso ocorra é o tempo de isquemia, ou seja, de falta de oxigênio no músculo do coração, que geralmente é mais longo em mulheres. A médica explica que, além de demorar mais para procurar o atendimento, as mulheres apresentam sintomas diferentes dos apresentados nos homens. O que pode atrasar o diagnóstico.
— A mulher não valoriza o seu sintoma e às vezes não era só uma dorzinha, era um infarto. As mulheres pensam em agradar todo mundo. Elas primeiro cuidam do filho, da mãe, elas sempre estão à frente dos cuidados dos outros. Mas a gente não pode esquecer: o coração da mulher precisa de cuidados — lembrou Viviana Lemke.
A diretora do Departamento de Cardiologia da Mulher da SBC, Alexandra Mesquita, concorda. Durante a audiência ela apresentou dados sobre o atraso no tempo de atendimento para a mulher. A demora no diagnóstico, alertou, piora as chances de sobrevida.
— O que acontece? As mulheres chegam a um serviço de atendimento médico cerca de 37 minutos após o homem. Isso foi um estudo de Zurique [na Suíça]. E, chegando no mesmo tempo que o homem, ela é atendida cerca de 42 minutos após. Essa demora no diagnóstico, no início de tratamento, piora muito o prognóstico dessa mulher — lamentou.
Sintomas
Viviana Lemke informou que nas mulheres os sintomas de infarto são diferentes e muitas vezes essa informação não é conhecida pelas pessoas. A dor no peito, braço e pescoço, que é típica nos homens, muitas vezes não está presente nas mulheres, que sentem cansaço, palpitações, respiração curta. Esses sintomas podem ser confundidos com crise de ansiedade ou outras doenças.
Foi o que ocorreu com a paciente Benedita Albuquerque, que deu seu depoimento durante a audiência. Ela relatou ter sentido um “aperto” na região abdominal e procurado um hospital em Planaltina (DF). A paciente disse que foi diagnosticada como se estivesse com dengue e mandada de volta para casa. Com a piora dos sintomas, ela voltou ao hospital, onde, após exames, descobriu que era um infarto.
Alexandra Mesquita lembrou que, além dessa dificuldade de diagnóstico, a mulher sobre com fatores específicos, como ovário policístico, endometriose, menopausa e doenças na gravidez, como o diabetes gestacional e a pré-eclâmpsia.
A médica também alertou para o dato de que a mulher sofre mais com fatores considerados sub-reconhecidos, como assédio moral e sexual, discriminação, privação do sono e estresse crônico em função da dupla jornada, já que o trabalho doméstico muitas vezes não é dividido de maneira igualitária.
Estudos
A cardiologista Gláucia Moraes, coordenadora dos cursos de mestrado e doutorado em cardiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), afirmou que as doenças cardiovasculares das mulheres não são sub-reconhecidas só por elas mesmas, mas também pelo meio médico.
— Vários trabalhos que são feitos no mundo não têm mulheres incluídas nesses estudos e muitas das drogas que nós usamos são drogas que foram feitas para tratar homens, e não para tratar nós mulheres, então a gente precisa de ter um trabalho conjunto para que essas mulheres possam mudar a sua vida — disse.
Na visão da médica, medidas como como dieta, atividade física, controle do estresse e do sono, diminuição do peso e fim do tabagismo podem reduzir em 40% a incidência doenças cardiovasculares nas mulheres. Para ela, essas medidas não têm um custo alto para o estado e envolvem conscientização, por isso a importância do debate na comissão.
Para a especialista em hemodinâmica e cardiologia intervencionista, Fernanda Marinho Mangione, as mulheres também são prejudicadas no caso das valvulopatias, doenças nas válvulas do coração. Nas cirurgias de peito aberto, a mortalidade delas é superior à dos homens, o que poderia ser resolvido com técnicas menos invasivas, como tratamentos transcateter, feitos com a inserção de dispositivos por meio de vasos sanguíneos, com pequenas incisões.
— As mulheres têm piores resultados com tratamentos mais invasivos, mais agressivos, então a gente precisa priorizar tratamentos minimamente invasivos nessa população. E a gente precisa, urgentemente, atualizar essas indicações na ANS [Agência Nacional de Saúde Suplementar, que regula os planos de saúde], e também conseguir, efetivamente, disponibilizar esses tratamentos minimamente invasivos no SUS.
Data
O Dia Nacional da Conscientização das Doenças Cardiovasculares na Mulher foi instituído pela Lei 14.320, de 2022. A médica e ex-deputada Mariana Carvalho, autora do PL 1.136/2019, que deu origem à lei, também participou do debate e alertou para as desigualdades regionais, outro fator que pode atrasar o diagnóstico para parte das mulheres.
— No meu estado de Rondônia, a gente tem regiões ribeirinhas às quais o acesso médico, a informação não chega. Com essa falta, às vezes a pessoa deixa para depois, e o tempo é precioso para salvar vidas. Como foi dito aqui, a gente fica preocupado, porque muitas vezes a gente não consegue levar esse acesso à saúde, à saúde básica, à informação, prevenção, cuidado principalmente, às mulheres, que muitas vezes, com a vida sobrecarregada, deixam isso para depois.
Ex-ministro da Saúde, o cardiologista Marcelo Queiroga afirmou que é preciso cobrar do governo para que os programas já existentes cheguem a quem precisa.
— Hoje o que nós vivemos é um ambiente de negligência. As pessoas não valorizam os sintomas que as mulheres têm e, às vezes, um infarto passa despercebido e isso é pago em vidas, em vidas das mulheres brasileiras,
A ex-parlamentar e o ex-ministro agradeceram à senadora Damares e ao Congresso a sensibilidade para tratar do tema da saúde cardiovascular da mulher.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
POLÍTICA NACIONAL
Levantamento inédito do DataSenado confirma violência contra trans e travestis
Published
1 mês agoon
23 de junho de 2026By
Da Redação
Agressões, constrangimentos em espaços coletivos, discriminação no mercado de trabalho, problemas no atendimento em órgãos públicos e violência sexual. Essas são algumas das situações relatadas por mulheres transexuais e travestis entrevistadas na 11ª edição da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, do DataSenado. O levantamento mostra que 56% das entrevistadas passaram por situações de violência nos últimos 12 meses.
Conduzida entre maio e julho de 2025 pelo DataSenado, em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência (OMV), a edição mais recente da pesquisa traz um recorte inédito, específico sobre as mulheres trans. Das 43 entrevistadas que se identificaram como trans ou travestis, 40% relataram agressões verbais associadas diretamente à sua identidade de gênero. Outras 17% disseram terem sido agredidas fisicamente e 12% sofreram violência sexual no último ano.
Rolf Regehr, psicólogo e chefe do serviço de pesquisa e análise do DataSenado, ressalva que a falta de dados populacionais oficiais sobre mulheres trans e travestis no Brasil restringe análises com maior precisão estatística. Mas os dados desse novo recorte da pesquisa, explica, ajudam a entender aspectos como a naturalização das violências sofridas, detectada nas entrevistas.
— [Os resultados da pesquisa] são achados exploratórios sobre o grupo entrevistado. A pesquisa, nesse sentido, procura contribuir para uma compreensão mais precisa de aspectos relevantes de suas vivências, como nesse caso, a recorrência e naturalização das violências sofridas — diz Regehr.
Naturalização das agressões
Para o psicólogo, a naturalização das agressões no cotidiano fica clara quando muitas das situações enfrentadas diariamente por essas mulheres sequer são identificadas prontamente como violência. Apenas 4% das entrevistadas afirmaram, inicialmente, ter sofrido violência de gênero. Depois, quando questionadas situações específicas, 56% delas afirmaram ter passado por algumas delas no último ano.

Foi o medo de passar por situações como essas que fez a escritora Rafaela Miranda, de 37 anos, parar de frequentar certos espaços públicos, como banheiros coletivos.
— Eu não frequento de forma alguma. Prefiro ficar me segurando, porque sei que se eu entrar num banheiro público as pessoas vão começar a olhar de forma diferente, já que não tenho “passabilidade” — diz Rafaela, usando o termo que se refere ao reconhecimento social das mulheres trans como mulheres.
A violência de gênero, no caso de Rafaela, também se mostra no tratamento por pronomes masculinos, mesmo com todos os documentos retificados e a identificação como mulher trans.
De acordo com a antropóloga Beatriz Accioly, essas exclusões, pela frequência com que acontecem, podem acabar sendo naturalizadas e fazer com que mulheres trans entendam que determinados espaços não são feitos para elas.
— Quando uma mulher é hostilizada na rua, mal atendida em um serviço público ou tem sua identidade constantemente questionada, ela recebe a mensagem de que aquele espaço não foi feito para ela. Esses episódios produzem medo, restringem a circulação e afetam o acesso a direitos — explicou ao DataSenado Beatriz, que é gerente de políticas públicas pelo Fim da Violência Contra Mulheres no Instituto Natura, parceiro no Mapa Nacional da Violência de Gênero.
Mesmo nos serviços públicos, as mulheres trans relatam episódios de mau atendimento e transfobia. É o caso de uma das mulheres entrevistadas pela pesquisa, moradora do Distrito Federal, que relatou dificuldade ao procurar serviços de saúde: “Só por eu falar meu nome de mulher, né? Ele falava meu nome de homem, e eu pedindo pra falar meu nome de mulher, e não queriam me atender como mulher.”
Tornar essas experiências visíveis, explica Vitória Régia da Silva, diretora executiva da organização Gênero e Número — também parceira do Senado no mapa —, é um passo fundamental para ampliar a produção de evidências, fortalecer políticas de proteção e garantir que mulheres trans e travestis sejam incluídas no debate público sobre enfrentamento à violência de gênero.
Violência Doméstica
Das entrevistadas, 47% disseram já ter sofrido violência doméstica. Para 70% das vítimas, a violência afetou o convívio com outras pessoas e para 55%, a rotina diária. A vida profissional (45%) e os estudos (35%) também são prejudicados pela violência, que é, na maior parte das vezes, psicológica.

Mercado de trabalho
No mercado de trabalho, a exclusão das mulheres trans e travestis também fica clara. Apesar de ser qualificada, Rafaela tem dificuldade de conseguir emprego e relata que o comportamento dos recrutadores muitas vezes muda quando ela se identifica como uma mulher trans.
— Mandei um currículo para uma empresa. A pessoa começou conversar comigo pelo WhatsApp, me tratou bem, elogiou meu currículo. No final da entrevista, eu sempre aviso que sou transexual, para não ter o constrangimento de chegar no dia da entrevista presencial e ficarem me tratando diferente, né? Assim que eu falei que era transexual, a empresa simplesmente parou de me responder — lamenta.
A dificuldade relatada por Rafaela aparece nos resultados da pesquisa, com 26% das entrevistadas tendo declarado que não conseguem se sustentar. “Tenho três formações, chego pra fazer entrevista vejo no olhar do entrevistador que não vai me chamar”, disse uma das mulheres entrevistadas, do Paraná.
— Então o que está em avaliação não é a competência, não é a formação, não é o quanto a pessoa estudou, é ela ser trans. São pessoas capacitadas em alguma profissão, mas que não conseguem emprego, ou só conseguem com renda muito baixa — disse Rolf ao comentar o resultado da pesquisa.
Das mulheres ouvidas no levantamento, 51% se declararam ocupadas e 42% estão fora da força de trabalho. Outras 7% estão desocupadas. Em relação à renda, 56% das mulheres ganham menos que dois salários mínimos, 19% ganham entre dois e seis salários mínimos e 14%, acima de seis. Outras 12% não quiseram ou souberam informar.
Copeira do Senado há dois anos, Scarlety Pereira só teve a primeira carteira de trabalho assinada aos 30 anos. Para ela, é preciso dar oportunidades para que as mulheres trans possam deixar o rótulo de que nasceram para servir, inclusive na prostituição.
— O Senado me deu oportunidade de estudar. Hoje eu faço jornalismo e secretariado. Graças a Deus, esse trabalho me deu a oportunidade de aprender e de poder me colocar em um lugar melhor na sociedade — comemora.
Mapa Nacional
O recorte sobre mulheres trans e travestis estará disponível, a partir de quinta-feira (25), na página “Pesquisa Nacional” do Mapa Nacional da Violência de Gênero, uma parceria entre o Senado, o Instituto Natura e a Gênero e Número, que reuniram seus projetos em uma plataforma pública e interativa com dados sobre a violência de gênero no Brasil.
Criado em 2016 pelo Senado, o Observatório da Mulher contra a Violência reúne, analisa e divulga dados sobre a violência de gênero no Brasil. Em parceria com o Instituto DataSenado, produz e integra informações para subsidiar políticas públicas e alimentar o intercâmbio entre as principais instituições envolvidas no enfrentamento à violência contra mulheres.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
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