Cerca de 67 indígenas dos povos Pataxó Hã-Hã-Hãe e Pataxó, da aldeia Katurãma, em São Joaquim de Bicas, protestaram nesta quinta-feira (13) na sede da Vale, em Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. A principal reivindicação é o restabelecimento do fornecimento de água potável à comunidade, que, segundo as lideranças, está há cinco dias sem abastecimento.
A cacica Ãgoho afirmou que a falta de água já afeta moradores, crianças e animais da aldeia. Segundo ela, animais começaram a morrer e a comunidade precisou recorrer a um poço para atividades básicas.
A liderança relatou ainda que uma criança de 28 dias precisou ser banhada com água retirada do poço e posteriormente apresentou uma infecção no olho.
De acordo com os indígenas, cerca de 15 hectares do território foram atingidos por rejeitos relacionados ao rompimento da barragem de Brumadinho e posteriormente carregados por uma enchente, em 2021. A comunidade afirma que os rejeitos comprometeram poços utilizados para o abastecimento.
“A Vale até colocou placas falando que a água não é boa para o consumo”, afirmou a cacica.
O vice-cacique Hyo disse que o problema vai além da interrupção do abastecimento. Segundo ele, a comunidade também enfrenta a morte de animais e outros impactos dentro do território.
Comunidade cobra reparação
A aldeia Katurãma é formada pelos povos Pataxó Hã-Hã-Hãe e Pataxó. Conforme a liderança, a comunidade chegou à região de Brumadinho em 2017, antes do rompimento da barragem, e deixou o território impactado em 2020.
Depois de passar por diferentes locais, o grupo se estabeleceu na área atual, em São Joaquim de Bicas. Segundo a cacica, a comunidade adquiriu a Fazendinha Grande, anexa à Katurãma, com recursos de uma primeira reparação negociada com a Vale.
As lideranças afirmam, porém, que ainda existem demandas relacionadas à reparação e reivindicam tratamento semelhante ao concedido a outros grupos atingidos.
Além da água potável, a comunidade pede a realocação para outro território enquanto as questões relacionadas à área atual não são solucionadas.
Protesto começou pela manhã
Os indígenas chegaram à sede da Vale por volta das 7h. Durante a manifestação, segundo os participantes, a empresa teria esvaziado uma piscina utilizada pelas crianças e interrompido o fornecimento de água no prédio, dificultando o acesso a bebedouros e banheiros.
A Polícia Militar informou que foi acionada, mas que não poderia intervir na situação, por se tratar de uma ocorrência de competência da Polícia Federal.
A Vale afirmou que respeita o direito à manifestação pacífica, mas disse repudiar ações que possam causar danos ao patrimônio, prejudicar o direito de ir e vir ou colocar pessoas em risco.
Em posicionamento, a empresa declarou ainda que vem cumprindo os acordos firmados com comunidades indígenas e que permanece aberta ao diálogo com os povos indígenas e comunidades tradicionais.
A comunidade afirma ter encaminhado documentos sobre a situação à Funai, à Polícia Federal, ao Ministério Público Federal e à Justiça Federal. As lideranças esperam que a reunião com representantes da mineradora resulte em medidas concretas para solucionar o problema.
“A água é vida”, afirmou a cacica Ãgoho ao reforçar a cobrança por uma resposta para a comunidade.