POLÍTICA NACIONAL

Rico Melquiades admite acordo com Ministério Público, mas nega ilegalidades

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O influenciador digital Luiz Ricardo Melquiades, conhecido como Rico Melquiades, admitiu à CPI das Bets que assinou um acordo com o Ministério Público de Alagoas que evita processo penal relativo a investigações sobre divulgação irregular de jogos de apostas on-line (acordo de não persecução penal). Ele prestou depoimento à CPI nesta quarta-feira (14).

Convocado como testemunha, Rico manteve silêncio sobre o conteúdo do acordo por ser sigiloso e afirmou que houve vazamento. Ele afirmou que não fez nada ilegal e que desconhecia supostas atividades investigadas de lavagem de dinheiro relacionadas a organizações criminosas.

— Eu fazia [propaganda para] a Blaze. Eu desconheço esse negócio de formação de quadrilha. A minha relação com as plataformas de apostas foi só como influenciador; fiz campanhas publicitárias. Tudo foi documentado de forma legal. Eu sempre segui as regras que eram vigentes na época — declarou Rico, que se comprometeu a entregar cópia dos contratos aos senadores.

Relatora da CPI, a senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS) questionou três postagens de divulgação de apostas feitas por Melquiades entre 2023 e 2024, em que ele apenas apresenta a logomarca da empresa. Segundo Soraya, apesar de o período ser anterior às regras para publicidade no setor vigentes a partir de 2025, as divulgações não observaram outras normas de propaganda.

— Contraria o Código do Consumidor, que garante ao público o direito à informação clara e adequada sobre o produto que você divulga. Também contraria as regras do Conar [Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária], que exigem que toda publicidade feita por influenciadores esteja devidamente identificada — disse a senadora.

As apostas esportivas on-line e os jogos de azar on-line tiveram o primeiro passo para a legalização em 2018, com a Lei 13.756, que exigia a regulamentação do Poder Executivo. O setor recebeu novas regras em 2023 (Lei 14.790) e, após seis meses de transição, passou a ter a regulamentação totalmente vigente a partir de janeiro de 2025.

Investigação

A informação do acordo de não persecução penal, feito depois de abril de 2025, veio do senador Izalci Lucas (PL-DF), que citou trechos do documento. Esse acordo é uma negociação promovida entre o Ministério Público e o investigado, e prevê o cumprimento de certas condições.

— O senhor confessou formalmente a sua participação nos crimes de associação criminosa e falsidade ideológica no contexto da promoção do “jogo do tigrinho”. Essa confissão resultou na homologação de um acordo que incluiu um pagamento de multa de R$ 1 milhão. O que motivou a mudança da sua posição inicial, em que negava qualquer irregularidade? — indagou o senador.

O advogado de Rico Melquiades, Diego Luiz Cavalcanti Duca, afirmou que as informações de Izalci se referem à investigação da operação Game Over 2, da Polícia Civil de Alagoas, “e não necessariamente que ele confessou”.

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Alertas de risco

Em resposta a Soraya, Rico disse que sua forma de fazer a propaganda das bets não mudou após o acordo com o Ministério Público. Segundo ele, essa não é a sua única fonte de renda — o depoente lembrou que foi vencedor do programa de televisão A Fazenda e já realizou diversas peças publicitárias.

— Eu sempre tive o critério que eu tenho até hoje, que foi sempre falar dos riscos que você tem quando joga. Sempre deixava muito claro: “Olha, você pode conseguir pagar uma conta de energia, uma conta de água, mas jogando com cautela”. Nunca mostro ganhos altos quando eu divulgo. Nunca falei: “Olha, você vai jogar e você vai comprar um carro”. Eu [também] posto apertando o botão [do jogo] e perdendo. Eu paro quando eu ganho. Hoje existe uma imagem que eles mandam para a gente colocar nela a numeração da regulamentação, falando que é para maiores de 18 anos — declarou Rico.

Izalci, por sua vez, criticou influenciadores que “fazem propaganda dentro de iate de luxo, demonstrando subliminarmente que [o iate] foi fruto do jogo”. Já o senador Dr. Hiran (PP-RR), presidente da CPI das Bets, apontou que os avisos “não são enfáticos” o suficiente.

— Às vezes, influencers mostram uma vida que gera uma ansiedade tremenda nas pessoas, e essa ansiedade gera depressão, uma sensação de que não se está construindo nada na vida — observou Hiran.

Ludopatia

Ao responder a outro questionamento de Soraya, Rico afirmou que não conhecia o termo “ludopatia”, transtorno mental que se refere ao vício em jogos de aposta. Na opinião da senadora, uma “pandemia de ludopatia está acometendo o nosso país”.

— [Ludopatia] é o que o senhor promove. Nós temos recebido um número muito significativo de relatos de pessoas que estão viciadas. Famílias que foram à bancarrota, pessoas devendo para agiotas, pessoas que ceifaram suas vidas… 

Segundo Rico, as restrições à propaganda das bets devem vir do Congresso Nacional. E argumentou que alertar sobre os riscos é o que ele pode fazer.

— Eu não obrigo ninguém a jogar. Antes [das bets e dos influenciadores] já existia jogo do bicho, loteria. Não mudou muita coisa. E do mesmo jeito que tem pessoas que se endividam para jogar, tem pessoas que se endividam para beber.

O senador Eduardo Girão (Novo-CE) — assim como fez com a influenciadora Virgínia Fonseca, que compareceu à CPI na terça-feira (13) — sugeriu que Rico, que possui mais de 10 milhões de seguidores na rede social Instagram, deixasse de realizar esse tipo de propaganda.

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— Nem tudo que é legal é moral. Não é só jogar a culpa no Congresso Nacional; o senhor tem também o livre arbítrio — enfatizou Girão.

Para a senadora Damares Alves (Republicanos-DF), os congressistas devem “trazer para as bets as regras do cigarro”.

— A gente vai ter de tomar uma decisão: influenciador não divulgar mais bets. O que a gente pode fazer é fechar a torneira. Que eles encontrem um outro produto; o Rico vai encontrar — defendeu a senadora.

Nova empresa

Rico também informou que há cerca de um mês possui contrato de exclusividade com outra empresa de apostas, a ZeroumBet. Segundo ele, o contrato é de cachê fixo, sem “metas para bater” e sem ganhos variáveis, para realizar quinze postagens por mês no Instagram.

Segundo Soraya, a influenciadora Deolane Bezerra — que já foi convocada pela CPI, mas não compareceu — já foi sócia da ZeroumBet. A relatora também ressaltou que a empresa trocou de dono de forma suspeita nos últimos meses; Soraya afirmou que a advogada de Deolane, Adélia de Jesus Soares, passou sua parte na sociedade da Zeroumbet para a esposa ou um parente de Daniel Pardim, que foi preso na CPI sob acusação de falso testemunho.

Aos senadores, Rico afirmou que conhece Deolane — que chegou a ser presa em uma operação da polícia civil de Pernambuco —, mas que não sabia que ela tinha sido sócia da empresa para a qual agora faz publicidade.

Adélia foi convocada para depor juntamente com Rico, mas não compareceu, amparada por decisão do Supremo Tribunal Federal.

Demonstração

A pedido dos senadores, o influenciador demonstrou em um aparelho celular como funcionam os jogos on-line. Soraya avaliou que as informações sobre as possibilidades de ganho na plataforma não são claras.

Os parlamentares questionaram se o influenciador utilizava uma “conta de demonstração” em que empresas de apostas disponibilizariam plataformas ou contas especiais (a quem divulga a empresa) para que os resultados anunciados sejam positivos para fins de publicidade. O convocado afirmou que nunca utilizou isso.

— Eu posso falar do que eu divulgava, que eu perdia e ganhava também… Não tenho conhecimento [de outros artifícios como “contas de demonstração”]. Desde janeiro [após a regulamentação], eu crio o meu usuário. Tem que botar seu documento, seu CPF. Eu que boto dinheiro na conta para fazer as divulgações — disse ele.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

Fonte: Agência Senado

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Diagnóstico tardio prejudica vítimas de hipertensão pulmonar, aponta audiência

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A hipertensão pulmonar (HP) é grave e sobrecarrega o coração. Por isso, o diagnóstico tardio e a dificuldade em acessar tratamento no Sistema Único de Saúde (SUS) podem levar à redução do período de vida. A situação preocupa senadores e especialistas que participaram nesta segunda-feira (22) de audiência pública na Comissão de Ciência e Tecnologia (CCT).

Presidente da CCT, o senador Flávio Arns (PSB-PR) salientou a difícil realidade imposta aos pacientes e famílias. Ele lembrou que, em 2003, no seu primeiro mandato, o Senado se debruçou bastante sobre o tema. Arns reforçou que essa é uma área que conta com o apoio dos parlamentares.

— A gente tem que olhar para a pesquisa, a inovação, o trabalho mundial nesta área, não só em relação à hipertensão, à produção de medicamentos, pesquisas, acompanhamento, mas inclusive todas as pesquisas que apontam para a estabilização, para a cura, como acontece com muitas doenças raras também no mundo inteiro — disse Flávio Arns.

Diagnóstico

Vice-presidente da Associação Brasileira de Apoio à Família com Hipertensão Pulmonar e Doenças Correlatas (Abraf), Débora Lima disse que o diagnóstico é assustador e que os pacientes não sabem onde pedir socorro. Também diagnosticada com a hipertensão pulmonar após sete anos de investigação, ela salientou que o diagnóstico de HP atinge o paciente de várias formas.

— As dimensões do sofrimento são diversas. A gente fala muito sobre a perspectiva daquilo que acontece dentro da jornada do paciente no sistema de saúde, mas ela te acomete por várias áreas. Ela te acomete dentro da sua saúde, das suas questões físicas, dentro do ponto de vista econômico, social, psicológico, espiritual, familiar e do cuidador.

Análise sobre quem são os pacientes com hipertensão pulmonar no Brasil, conduzida pela Abraf em 2019, identificou que entre os pacientes, 86% eram mulheres, a maioria entre 30 e 49 anos, em plena idade ativa e reprodutiva, mas que 56% desses pacientes estavam fora do mercado de trabalho. A doença retira completamente as pessoas da vida produtiva, mas esses pacientes não são considerados pessoas com deficiência e têm uma dificuldade imensa de acesso a direitos e benefícios previdenciários. E 51% desses pacientes viviam com uma renda familiar de até R$ 2 mil. 59% dos pacientes se sentem deprimidos na maior parte do tempo e 86% sofrem de angústia ou ansiedade.

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Sintomas

De acordo com o presidente da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), Ricardo de Amorim Corrêa, a maioria dos pacientes tem pelo menos dois anos de sintomas antes de ter o diagnóstico, “o que é uma tragédia do ponto de vista do tratamento”. Na hipertensão pulmonar, as artérias ficam engrossadas, escurecidas, tornando muito difícil a passagem do sangue para o coração. O paciente sente muita falta de ar e limitação no esforço. Várias doenças cardíacas e pulmonares causam a hipertensão pulmonar. A esquistossomose é causa significativa no Brasil e provavelmente subestimada, de acordo com o médico.

Entre as principais lacunas epidemiológicas e de saúde pública na hipertensão pulmonar está a falta de registros multicêntricos prospectivos que representem a heterogeneidade da população brasileira, limitando estimativas precisas de prevalência e incidência nacional. Ainda, o diagnóstico é tardio e há acesso desigual ao tratamento.

Transplantes

A presidente do Grupo de Estudos de Circulação Pulmonar do Departamento de Cardiopatias Congênitas e Cardiologia Pediátrica da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), Flavia Navarro disse que de janeiro de 2019 a junho 2025, houve 315 transplantes pulmonares bilaterais e 116 unilateriais pelo DataSUS no Brasil. Mas de Cid [Classificação Internacional de Doençase Problemas Realcionados à Saúde] de DataSUS são apenas 18 transplantes nesse período, sendo a maioria em São Paulo.

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— O valor aproximado pago pelo SUS é de R$ 110 mil. Mas na rede privada, o valor estimado é de R$ 2,5 milhões. E aí, o paciente que está na região Norte do Brasil tem acesso ao transplante pulmonar? Não tem. […] Diferente de outros países, o transplante não é uma realidade para o Brasil — disse Flávia Navarro.

Protocolo clínico

Tecnologista da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde do Ministério da Saúde, Cecília Menezes Farinasso explicou que em 2023 foi aprovado o novo Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) da hipertensão pulmonar, um marco legal que coloca o protocolo estruturado com base nas mais recentes evidências clinicas e científicas.

— [O protocolo] ampliou o escopo no que se refere ao tratamento da doença e focou também no cuidado integral do paciente, consolidando práticas, fluxos atualizados e uma visão mais ampla do paciente no âmbito do SUS — expôs Cecília.

Segundo a coordenadora-geral de Atenção Especializada do Ministério da Saúde, Carmen Cristina Moura dos Santos, pela primeira vez foi instituída a Política Nacional de Atenção Especializada, que pretende ampliar e garantir o acesso da população a serviços especializados.

Ela lembrou que a incidência da doença é de dois a cinco pacientes a cada milhão de adultos por ano e que a sobrevida mediana é de apenas 2,8 anos na ausência de tratamento especifico.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

Fonte: Agência Senado

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