POLÍTICA NACIONAL
Conceito e questões de saúde contrapõem debatedores sobre ultraprocessados
Publicado em
26 de maio de 2026por
Da Redação
Os alimentos ultraprocessados — como refrigerantes, biscoitos e salgadinhos de pacote — representaram 26,7% das calorias ingeridas por adolescentes, 19,5% por adultos e 15,1% por idosos, segundo dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2020, do IBGE. Os números foram lembrados por participantes de audiência pública realizada no Senado nesta terça-feira (26), que debateu os efeitos do consumo desses alimentos, especialmente entre crianças e adolescentes.
Em geral, alimentos ultraprocessados são produtos industriais prontos para consumo, ricos em aditivos químicos (que aumentam a durabilidade e dão mais sabor à comida) e que contêm pouco ou nenhum alimento de verdade, entre outras características.
Especialistas alertaram que o consumo excessivo desse tipo de produto está associado ao aumento da obesidade e de doenças crônicas, devido ao alto teor de açúcar, gorduras e calorias e à baixa qualidade nutricional desses produtos. Segundo debatedores, os efeitos podem começar ainda na infância e atingir também a saúde mental, o desempenho escolar e os custos para o sistema de saúde. Por outro lado, representantes da indústria apontaram fragilidades na definição e na generalização dos produtos, além de rigor na produção e a busca permanente pela melhoria da qualidade, inclusive por meio de normas e acordos com órgãos públicos.
Promovido pela Comissão de Assuntos Sociais (CAS), o debate reuniu representantes do governo, pesquisadores, entidades da sociedade civil e da indústria alimentícia para discutir regulação do setor, acesso à alimentação saudável e consequências do consumo excessivo de ultraprocessados. A audiência foi presidida pela senadora Dra. Eudócia (PSDB-AL).
Alimentação é saúde
Representante do Ministério da Saúde, a nutricionista Carla Renata dos Santos Marques destacou que a promoção da alimentação saudável ocorre tanto nas unidades básicas de saúde quanto nas escolas, por meio de ações de educação alimentar e nutricional, hortas pedagógicas e programas intersetoriais. Entre as iniciativas citadas pela nutricionista estão o Programa Saúde na Escola e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que seguem as orientações do Guia Alimentar para a População Brasileira.
O assessor regional em Nutrição e Atividade Física da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/WDC), Fábio Gomes, ressaltou que já existe ampla evidência científica relacionando o consumo de ultraprocessados ao aumento de doenças crônicas não transmissíveis. Segundo ele, estudos mostram que dietas ricas nesses produtos elevam a ingestão de açúcar, gorduras e calorias e reduzem o consumo de nutrientes essenciais. Fábio também afirmou que os efeitos começam ainda nos primeiros meses de vida, afetando inclusive a amamentação e a alimentação infantil.
Vitória Moraes, nutricionista e analista de Inteligência do Programa Alimentação Saudável da ACT Promoção da Saúde, afirmou que o consumo de ultraprocessados está associado não apenas à obesidade e doenças crônicas, mas também a problemas como depressão, transtornos alimentares, bullying e baixo desempenho escolar. Segundo ela, o custo do tratamento da obesidade entre crianças e adolescentes chegou a R$ 1,6 bilhão na última década.
Ela destacou ainda que as escolas são ambientes estratégicos para a formação de hábitos alimentares. Segundo ela, estudos mostram que iniciativas locais de restrição de ultraprocessados em cantinas escolares reduziram o consumo desses produtos e podem diminuir os índices de obesidade entre adolescentes.
Desigualdade de acesso
A representante do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), Bruna Pitasi, relacionou ultraprocessados, desigualdade social e insegurança alimentar. Ela apresentou dados sobre os chamados “desertos alimentares”, regiões com baixa oferta de alimentos saudáveis, e “pântanos alimentares”, locais com excesso de oferta de ultraprocessados.
Segundo Bruna, cerca de 25 milhões de brasileiros vivem em desertos alimentares e outros 15 milhões em áreas dominadas por ultraprocessados, situação que atinge principalmente jovens das periferias urbanas, especialmente a população negra e de baixa renda.
— A gente está falando também de uma grande desigualdade de raça, cor, desigualdade socioeconômica, desigualdade de trabalho, emprego e renda que vão afetar também esse consumo de alimentos ultraprocessados pelas pela população mais jovem.
Representando o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Roseli Oneide Zerbinato afirmou que o debate não pode ser tratado apenas como questão de escolha individual, mas também de acesso, abastecimento e organização do sistema alimentar. Ela ressaltou que, apesar de o Brasil ser um dos maiores produtores de alimentos do mundo, milhões de famílias ainda enfrentam insegurança alimentar e dificuldade de acesso à comida saudável.
Saúde Ambiental
Além dos impactos na saúde humana, Fábio Gomes ressaltou os efeitos ambientais da produção e do consumo de ultraprocessados. Ressaltou que grandes fabricantes desses produtos estão entre os maiores poluidores plásticos do mundo e alertou para o aumento da produção de resíduos, do consumo de água e da emissão de gases de efeito estufa associados a esse modelo de alimentação.
— Os seis maiores poluidores de plástico no mundo são produtores e fabricantes de produtos ultraprocessados. Isso já está bem documentado e segue sendo reportado anualmente por esse grupo que audita a poluição plástica em todo o mundo. E sabemos que o uso de plástico ele vai triplicar para 2060.
Além dos resíduos plásticos, Fábio afirmou que as tintas usadas em caixas e outras embalagens de produtos ultraprocessados também contêm metais tóxicos, que podem se acumular no solo e comprometer a saúde ambiental. Diante desse cenário, o especialista defendeu a adoção de medidas regulatórias para conter o avanço dos ultraprocessados, como rotulagem adequada, restrição da publicidade, tributação e regulamentação do ambiente escolar. Segundo ele, essas políticas são essenciais para proteger a saúde da população e o meio ambiente.
Posição da indústria
O representante da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia), Alexandre Novachi, defendeu o papel do setor na garantia do acesso da população a alimentos seguros e afirmou que a indústria mantém compromisso com a saúde pública. Segundo ele, acordos voluntários firmados com o Ministério da Saúde permitiram a redução de gorduras trans, sódio e açúcares em produtos industrializados.
De acordo com Gustavo Beduschi, da Associação Brasileira de Laticínios (Viva Lácteos), o processamento de alimentos contribui para a maior durabilidade dos produtos e afirmou que o setor segue regras do Ministério da Agricultura, da Anvisa e de normas internacionais. Ele criticou o que chamou de “demonização” dos alimentos ultraprocessados e argumentou que estudos sobre o tema apontam correlações, mas não necessariamente relação de causalidade com doenças. Segundo Gustavo, problemas como obesidade e doenças crônicas envolvem múltiplos fatores, como renda, sedentarismo e hábitos de vida. Ele também destacou a importância nutricional dos produtos lácteos e defendeu uma abordagem equilibrada sobre alimentação e saúde.
Raul Amaral, que participou pela Associação Pró-Desenvolvimento Industrial do Estado de Goiás (Adial), afirmou que há uma demanda crescente dos consumidores por produtos mais nutritivos, naturais e sustentáveis. Raul destacou que a indústria busca desenvolver ingredientes capazes de tornar os alimentos mais saudáveis, além de alternativas sustentáveis para componentes como óleo de palma e cacau.
Ele também citou novas tecnologias, como fermentação de precisão e cultivo celular, que, segundo afirmou, poderão contribuir futuramente para a alimentação da população e defendeu a reformulação de produtos como uma ferramenta importante para melhorar a alimentação da população e garantir segurança alimentar. Segundo ele, os ingredientes utilizados pela indústria passam por avaliações rigorosas de segurança realizadas por agências reguladoras.
Visões Divergentes
Luís Madi, engenheiro de alimentos e pesquisador do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), do governo de São Paulo, afirmou que a classificação de “alimentos ultraprocessados” não possui base consolidada na ciência e na tecnologia de alimentos e, por isso, não deveria orientar políticas públicas.
Segundo ele, desde a publicação do Guia Alimentar para a População Brasileira, em 2014, pesquisadores do Ital questionam o conceito. Madi argumentou que, do ponto de vista científico, não existe a categoria “ultraprocessado”, mas alimentos industrializados submetidos a processos voltados principalmente à segurança sanitária e à conservação.
A secretária-geral da Sociedade Brasileira de Nutrição e Alimentação (Sban), Marcia Terra, também defendeu maior clareza conceitual no debate sobre ultraprocessados. Ela afirmou que a segurança dos alimentos deve ser prioridade independentemente do tipo de produção. Ao citar um caso de botulismo envolvendo uma servidora pública que teria consumido alimento orgânico mal pasteurizado em Brasília, Marcia disse que não é contra alimentos orgânicos ou a produção familiar, mas contra alimentos estragados. Segundo ela, problemas de saúde não podem ser atribuídos exclusivamente a um alimento específico, já que doenças envolvem diferentes fatores comportamentais e de estilo de vida.
— Eu não sou contra alimento orgânico nem contra produção familiar. Sou a favor da segurança dos alimentos.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
POLÍTICA NACIONAL
Levantamento inédito do DataSenado confirma violência contra trans e travestis
Published
1 mês agoon
23 de junho de 2026By
Da Redação
Agressões, constrangimentos em espaços coletivos, discriminação no mercado de trabalho, problemas no atendimento em órgãos públicos e violência sexual. Essas são algumas das situações relatadas por mulheres transexuais e travestis entrevistadas na 11ª edição da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, do DataSenado. O levantamento mostra que 56% das entrevistadas passaram por situações de violência nos últimos 12 meses.
Conduzida entre maio e julho de 2025 pelo DataSenado, em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência (OMV), a edição mais recente da pesquisa traz um recorte inédito, específico sobre as mulheres trans. Das 43 entrevistadas que se identificaram como trans ou travestis, 40% relataram agressões verbais associadas diretamente à sua identidade de gênero. Outras 17% disseram terem sido agredidas fisicamente e 12% sofreram violência sexual no último ano.
Rolf Regehr, psicólogo e chefe do serviço de pesquisa e análise do DataSenado, ressalva que a falta de dados populacionais oficiais sobre mulheres trans e travestis no Brasil restringe análises com maior precisão estatística. Mas os dados desse novo recorte da pesquisa, explica, ajudam a entender aspectos como a naturalização das violências sofridas, detectada nas entrevistas.
— [Os resultados da pesquisa] são achados exploratórios sobre o grupo entrevistado. A pesquisa, nesse sentido, procura contribuir para uma compreensão mais precisa de aspectos relevantes de suas vivências, como nesse caso, a recorrência e naturalização das violências sofridas — diz Regehr.
Naturalização das agressões
Para o psicólogo, a naturalização das agressões no cotidiano fica clara quando muitas das situações enfrentadas diariamente por essas mulheres sequer são identificadas prontamente como violência. Apenas 4% das entrevistadas afirmaram, inicialmente, ter sofrido violência de gênero. Depois, quando questionadas situações específicas, 56% delas afirmaram ter passado por algumas delas no último ano.

Foi o medo de passar por situações como essas que fez a escritora Rafaela Miranda, de 37 anos, parar de frequentar certos espaços públicos, como banheiros coletivos.
— Eu não frequento de forma alguma. Prefiro ficar me segurando, porque sei que se eu entrar num banheiro público as pessoas vão começar a olhar de forma diferente, já que não tenho “passabilidade” — diz Rafaela, usando o termo que se refere ao reconhecimento social das mulheres trans como mulheres.
A violência de gênero, no caso de Rafaela, também se mostra no tratamento por pronomes masculinos, mesmo com todos os documentos retificados e a identificação como mulher trans.
De acordo com a antropóloga Beatriz Accioly, essas exclusões, pela frequência com que acontecem, podem acabar sendo naturalizadas e fazer com que mulheres trans entendam que determinados espaços não são feitos para elas.
— Quando uma mulher é hostilizada na rua, mal atendida em um serviço público ou tem sua identidade constantemente questionada, ela recebe a mensagem de que aquele espaço não foi feito para ela. Esses episódios produzem medo, restringem a circulação e afetam o acesso a direitos — explicou ao DataSenado Beatriz, que é gerente de políticas públicas pelo Fim da Violência Contra Mulheres no Instituto Natura, parceiro no Mapa Nacional da Violência de Gênero.
Mesmo nos serviços públicos, as mulheres trans relatam episódios de mau atendimento e transfobia. É o caso de uma das mulheres entrevistadas pela pesquisa, moradora do Distrito Federal, que relatou dificuldade ao procurar serviços de saúde: “Só por eu falar meu nome de mulher, né? Ele falava meu nome de homem, e eu pedindo pra falar meu nome de mulher, e não queriam me atender como mulher.”
Tornar essas experiências visíveis, explica Vitória Régia da Silva, diretora executiva da organização Gênero e Número — também parceira do Senado no mapa —, é um passo fundamental para ampliar a produção de evidências, fortalecer políticas de proteção e garantir que mulheres trans e travestis sejam incluídas no debate público sobre enfrentamento à violência de gênero.
Violência Doméstica
Das entrevistadas, 47% disseram já ter sofrido violência doméstica. Para 70% das vítimas, a violência afetou o convívio com outras pessoas e para 55%, a rotina diária. A vida profissional (45%) e os estudos (35%) também são prejudicados pela violência, que é, na maior parte das vezes, psicológica.

Mercado de trabalho
No mercado de trabalho, a exclusão das mulheres trans e travestis também fica clara. Apesar de ser qualificada, Rafaela tem dificuldade de conseguir emprego e relata que o comportamento dos recrutadores muitas vezes muda quando ela se identifica como uma mulher trans.
— Mandei um currículo para uma empresa. A pessoa começou conversar comigo pelo WhatsApp, me tratou bem, elogiou meu currículo. No final da entrevista, eu sempre aviso que sou transexual, para não ter o constrangimento de chegar no dia da entrevista presencial e ficarem me tratando diferente, né? Assim que eu falei que era transexual, a empresa simplesmente parou de me responder — lamenta.
A dificuldade relatada por Rafaela aparece nos resultados da pesquisa, com 26% das entrevistadas tendo declarado que não conseguem se sustentar. “Tenho três formações, chego pra fazer entrevista vejo no olhar do entrevistador que não vai me chamar”, disse uma das mulheres entrevistadas, do Paraná.
— Então o que está em avaliação não é a competência, não é a formação, não é o quanto a pessoa estudou, é ela ser trans. São pessoas capacitadas em alguma profissão, mas que não conseguem emprego, ou só conseguem com renda muito baixa — disse Rolf ao comentar o resultado da pesquisa.
Das mulheres ouvidas no levantamento, 51% se declararam ocupadas e 42% estão fora da força de trabalho. Outras 7% estão desocupadas. Em relação à renda, 56% das mulheres ganham menos que dois salários mínimos, 19% ganham entre dois e seis salários mínimos e 14%, acima de seis. Outras 12% não quiseram ou souberam informar.
Copeira do Senado há dois anos, Scarlety Pereira só teve a primeira carteira de trabalho assinada aos 30 anos. Para ela, é preciso dar oportunidades para que as mulheres trans possam deixar o rótulo de que nasceram para servir, inclusive na prostituição.
— O Senado me deu oportunidade de estudar. Hoje eu faço jornalismo e secretariado. Graças a Deus, esse trabalho me deu a oportunidade de aprender e de poder me colocar em um lugar melhor na sociedade — comemora.
Mapa Nacional
O recorte sobre mulheres trans e travestis estará disponível, a partir de quinta-feira (25), na página “Pesquisa Nacional” do Mapa Nacional da Violência de Gênero, uma parceria entre o Senado, o Instituto Natura e a Gênero e Número, que reuniram seus projetos em uma plataforma pública e interativa com dados sobre a violência de gênero no Brasil.
Criado em 2016 pelo Senado, o Observatório da Mulher contra a Violência reúne, analisa e divulga dados sobre a violência de gênero no Brasil. Em parceria com o Instituto DataSenado, produz e integra informações para subsidiar políticas públicas e alimentar o intercâmbio entre as principais instituições envolvidas no enfrentamento à violência contra mulheres.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
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