Agronegócio
Dependência de ureia expõe agronegócio brasileiro a tensão entre EUA e Irã
Publicado em
1 de março de 2026por
Da Redação
A escalada de tensões no Oriente Médio reacende um ponto sensível para o agronegócio brasileiro: a forte dependência externa de fertilizantes nitrogenados, especialmente a ureia. O insumo é peça central na adubação de culturas como milho, soja e trigo e responde por parcela relevante dos custos de produção no campo.
O Irã ocupa posição estratégica nesse tabuleiro. Além de ser o 11º principal destino dos produtos agropecuários brasileiros, o país é um importante fornecedor de ureia ao Brasil. Dados do Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, mostram que, em 2025, as importações brasileiras de produtos agrícolas iranianos somaram o equivalente a cerca de R$ 420 milhões. Desse total, aproximadamente R$ 330 milhões referem-se apenas à ureia, com volume próximo de 184,7 mil toneladas.
Embora não esteja entre os três maiores fornecedores do insumo ao Brasil — posto ocupado por Nigéria, Omã e Catar — o Irã figura entre os maiores exportadores globais de ureia. Em um mercado altamente integrado, qualquer restrição logística, sanção econômica ou instabilidade política na região tende a pressionar preços internacionais.
A preocupação não se limita ao lado das importações. O Irã foi, em 2025, o principal comprador de milho brasileiro. Foram 9 milhões de toneladas embarcadas, volume equivalente a cerca de 23% de tudo o que o Brasil exportou do cereal no período. O produto abastece a indústria iraniana de proteína animal, especialmente a cadeia de frango, uma das maiores da Ásia.
Ou seja, a relação é de interdependência: o Brasil vende milho e compra ureia. Uma deterioração nas relações diplomáticas ou restrições comerciais decorrentes de um eventual conflito envolvendo Estados Unidos e Irã poderiam afetar tanto a demanda pelo grão brasileiro quanto o suprimento de insumos ao campo.
O principal canal de transmissão de risco é o preço. Uma redução na oferta global de ureia ou dificuldades logísticas no Golfo Pérsico tendem a elevar as cotações internacionais. Como o mercado brasileiro é amplamente importador, o repasse ao produtor costuma ser rápido.
Além disso, o encarecimento do gás natural em cenários de conflito pode elevar o custo de produção do fertilizante em diferentes países, ampliando o efeito inflacionário.
No caso do milho, eventual retração das compras iranianas exigiria redirecionamento de volumes para outros mercados, possivelmente com ajuste de preço para manter competitividade.
Papel estratégico da ureia – “Esse cenário funciona como um alerta claro para o agronegócio brasileiro. Somos altamente competitivos na produção e exportação de grãos e proteínas, mas ainda dependemos de forma excessiva de insumos estratégicos importados, como a ureia. Qualquer instabilidade geopolítica pode afetar diretamente o custo de produção no campo”, lembra Isan Rezende (foto), Presidente do Instituto do Agronegócio (IA) e da Federação dos Engenheiros Agrônomos de Mato Grosso (Feagro-MT).
“O Brasil precisa tratar a segurança no abastecimento de fertilizantes como tema estrutural, não conjuntural. Não se trata apenas de preço momentâneo, mas de previsibilidade. O produtor rural trabalha com planejamento de safra, e volatilidade extrema no custo dos nitrogenados compromete decisões de investimento, área plantada e tecnologia aplicada”.
“É fundamental avançar na diversificação de fornecedores e, principalmente, na retomada da capacidade nacional de produção de fertilizantes nitrogenados. O País dispõe de mercado consumidor robusto e potencial energético que pode sustentar esse movimento. Reduzir a dependência externa é uma estratégia de soberania produtiva”, afirma Rezende.
“Enquanto o cenário internacional permanece incerto, o setor precisa reforçar mecanismos de gestão de risco, contratos antecipados e planejamento logístico. O agro brasileiro já demonstrou resiliência em outras crises globais, mas é preciso transformar essa experiência em política permanente de proteção ao produtor e à segurança alimentar”, comentou Isan.
A ureia é a principal fonte de nitrogênio utilizada na agricultura brasileira. O nutriente é essencial para o desenvolvimento vegetativo das plantas e impacta diretamente produtividade e teor de proteína dos grãos.
O Brasil importa cerca de 80% dos fertilizantes que consome, segundo dados do Ministério da Agricultura. No caso específico dos nitrogenados, a dependência externa é ainda mais elevada, reflexo do fechamento de fábricas nacionais nos últimos anos e da competitividade de produtores internacionais com acesso a gás natural a preços mais baixos — principal matéria-prima da ureia.
Em culturas como o milho, o fertilizante nitrogenado pode representar parcela significativa do custo operacional por hectare. Em momentos de alta abrupta nas cotações internacionais, como ocorreu após o início da guerra no Leste Europeu, o impacto se traduz em compressão de margens e, em alguns casos, redução de área plantada ou de doses aplicadas.
Fonte: Pensar Agro
Agronegócio
Agro dobra empregos em 20 anos e sustenta mais de 50% da economia
Published
47 minutos agoon
2 de maio de 2026By
Da Redação
O avanço do agronegócio em Mato Grosso redesenhou o mercado de trabalho e consolidou o setor como base da economia estadual. Em duas décadas, o número de trabalhadores ligados ao agro saltou de cerca de 173 mil em 2006 para 449 mil em 2026, segundo o Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea) — crescimento de quase 160%.
O movimento acompanha a expansão da produção e da área cultivada. Mato Grosso lidera a produção nacional de grãos, com safras que superam 100 milhões de toneladas somando soja, milho e algodão. A área agrícola do Estado ultrapassa 20 milhões de hectares cultivados, dentro de um território de cerca de 90 milhões de hectares, o que evidencia o espaço ainda disponível para intensificação produtiva.
Esse crescimento dentro da porteira puxou a geração de empregos fora dela. A cadeia do agro — que inclui transporte, armazenagem, processamento e serviços — passou a absorver mão de obra em ritmo mais acelerado, especialmente a partir de 2021, com o avanço da agroindustrialização e o aumento do volume produzido.
O peso econômico é direto. O agronegócio responde por cerca de 50% a 55% do Produto Interno Bruto (PIB) de Mato Grosso, de acordo com estimativas do próprio Imea e de órgãos estaduais. Na prática, isso significa que mais da metade de toda a riqueza gerada no Estado está ligada ao campo.
Esse protagonismo se reflete na dinâmica regional. Municípios com forte presença agrícola concentram maior circulação de renda, impulsionando comércio, serviços e construção civil. O efeito multiplicador do agro faz com que cada safra movimente não apenas a produção, mas toda a economia local.
Ao mesmo tempo, o perfil da mão de obra vem mudando. A incorporação de tecnologia no campo e na indústria exige trabalhadores mais qualificados, enquanto a expansão logística amplia a demanda por serviços especializados. O resultado é um mercado de trabalho mais diversificado, que vai além das atividades tradicionais da agricultura.
Fonte: Pensar Agro
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