POLÍTICA NACIONAL

Damares Alves assume presidência da CDH

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A Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) tem nova mesa. Eleita nesta quarta-feira (19) por aclamação, a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) é a nova presidente para o biênio 2025-2026. A senadora Mara Gabrilli (PSD) assume a vice-presidência da CDH. A reunião foi conduzida pela senadora Ivete da Silveira (MDB-SC). 

Damares defendeu como prioridades do colegiado a universalidade dos direitos humanos, “sem nenhuma relativização”, inclusive o direito à vida, à liberdade, à igualdade, à justiça e à segurança. Sua atuação, segundo a senadora, terá como norte a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Pacto de San Jose da Costa Rica). 

Ainda de acordo com Damares, terá como foco as pessoas com deficiência, principalmente aquelas que estão em localidades remotas, como aldeias e comunidades ribeirinhas, além daqueles que estão em presídios. Damares também destacou como foco do seu trabalho a proteção à primeira infância, à família em todas as suas configurações, às mulheres, aos jovens e, principalmente, a reformulação do Estatuto do Idoso. Conforme Damares, “nenhum assunto será negligenciado”. 

— Todos os temas que forem trazidos para esta comissão por um senador, por um membro dessa comissão, esse tema vem para a mesa. Nós não vamos deixar nenhum tema na gaveta por ideologia, por uma questão partidária ou porque a gente está sem tempo de discutir. Todos os temas serão trazidos para a mesa. E o Plenário é soberano e quem vai decidir o que for para votação é o Plenário. 

Mara Gabrilli elogiou Damares pela disposição de ouvir e respeitar as opiniões divergentes. Essa característica, segundo a vice, será fundamental no diálogo e na busca de consenso na CDH. Ela defendeu como prioridade a elaboração da Política Nacional de Cuidados. 

— Nosso principal objetivo, um dos nossos principais desejos é construir a política nacional de cuidados. A gente tem que fazer isso. Porque toda mulher é cuidadora, ela já nasce cuidadora. Esse serviço acaba sendo nosso. E a gente tem que discutir e valorizar essas mulheres cuidadoras que não tem aposentadoria, que não têm o olhar do estado, que não tem o valor que elas deveriam ter. Elas fazem de um tudo para poder dar conta. É trabalho em casa, é trabalho fora, é cuidar, é observar se o alimento está ficando mais caro, é observar o que a família vai comer. 

Os senadores parabenizaram as duas senadoras e manifestaram confiança na condução dos trabalhos. Para eles, o Senado “ganha muito” por colocar nessa posição duas mulheres. 

— São duas pessoas que são referência no tema aqui no Senado Federal e porque não dizer em todo o Congresso Nacional — disse Zequinha Marinho (Podemos-PA). 

Também manifestaram expectativa positiva com a nova mesa da CDH os senadores Alessandro Vieira (MDB-SE), Tereza Cristina (PP-MS), Mecias de Jesus (Republicanos-RR), Jaime Bagattoli (PL-RO), Dr. Iran (PP-RR) e Vanderlan Cardoso (PSD-GO) . 

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— A senhora conseguiu nesse início de exercício de mandato confirmar sua postura, estabelecer relações, sem abrir mão da sua ideologia e isso é muito importante e será fundamental para o seu trabalho — disse Alessandro Vieira, dirigindo-se a Damares. 

Consenso

Apesar de fazerem parte de correntes políticas divergentes, Damares enfatizou que a comissão defenderá sempre a democracia, a busca do consenso e respeitará a decisão da maioria. 

— Mesmo que seja um tema extremamente delicado e que talvez algumas pessoas acreditem que nós não vamos ter a coragem de tocar, nós vamos trazer o tema para a discussão e nós vamos respeitar a deliberação do Plenário — afirmou. 

Entre esses temas, Damares mencionou a defesa do direito à vida. Ela disse que se classifica como “universalista” na questão dos direitos humanos. Ela disse ser alvo de críticas por sua posição de “não aceitar o relativismo” em relação ao direito à vida. Ela reforçou que a CDHnão irá desviar do foco da universalidade.

— Vida é vida, em qualquer cultura, em qualquer raça, em qualquer situação. Então essa é a minha forma de conduzir. É a minha forma de trabalhar na pauta dos direitos humanos. É a universalização. Direitos humanos para todos, com todos, ouvindo todos. Nós não vamos segmentar os direitos humanos. Nós vamos ouvir setores, nós vamos ouvir segmentos, nós vamos ouvir pessoas.  

Direitos das Mulheres

Em relação à proteção e a garantia dos direitos das mulheres, a senadora informou que a comissão vai manter o diálogo com o Ministério das Mulheres, assim como manterá relações com as demais comissões do Senado, já que este é um tema transversal. Ela assegurou não relativizar o direito das mulheres em nome da “cultura ou de ideologia” e todas as mulheres “serão protegidas na comissão”. 

— Nós vamos discutir o direito de todas as mulheres, A mulher indígena vai estar nessa comissão, a mulher cigana vai estar nessa comissão, faz tempo que eu não vejo uma mãe cigana nesta Casa, a mulher quilombola vai estar nessa comissão, a mãe atípica, que está aqui agora, elas estarão nesta comissão. As marisqueiras estarão aqui. Todas as mulheres estarão nesta comissão. E nós não vamos admitir nenhum direito a menos para nenhuma mulher neste Brasil. 

Proteção à família

Ainda conforme Damares, a comissão atuará na proteção de todas as configurações familiares e o fortalecimento dos vínculos. Ela citou seu exemplo, de mãe solo e socioafetiva, considerando que esse grupo, merece especial atenção da CDH. 

— Somos mais de 50%, de famílias lideradas por mães solos […]. Então todas as configurações familiares estão presentes nesta comissão e nós vamos trabalhar o fortalecimento de vínculos.

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Criança e adolescentes 

Ainda de acordo com Damares, a comissão terá um “olhar cuidadoso para a juventude”, e apontou como prioridade projeto seu (PL 3.893/2023), que institui a Política Nacional da Juventude. 

— Nós precisamos dialogar com a juventude brasileira, nós precisamos entender as novas mudanças. Discutiram juventude há dez anos atrás, que era de uma forma, hoje é de outra. Nós temos esse desafio.  

Ela também disse que incentivará a presença de famílias e crianças na CDH e que vai procurar instalar fraldários. 

— As crianças vão invadir o Senado Federal. Damares e Mara estão presidindo a comissão que é a casa das crianças. Preparem-se. Quero brinquedo nos gabinetes, quero senadores contando historinha, cantando música infantil, as crianças terão prioridade. Faremos isso tão somente porque a Constituição fala que criança e adolescente é prioridade absoluta. Serei uma presidente ditadora, as crianças vão mandar nesta comissão. 

Pauta

De acordo com Damares, 409 propostas aguardam apreciação na comissão. Dessas, 66 aguardam designação de relator e outras sete esperam a realização de audiência pública. 318 estão aguardando relatório e 17 estão prontas para serem votadas. Damares assegurou que a comissão vai “limpar a pauta”. Ela também que fará diligências em espaços como presídios, campos, aldeias, quilombolas e regiões ribeirinhas, abrigos de idosos e crianças.

— Nenhuma matéria vai ficar na gaveta. Todas serão apreciadas. 

Além de senadores membros e não membros da comissão, marcaram presença na reunião representantes do Instituto Olga Costa e mães de crianças com microcefalia.  

Biografias

Damares é natural de Paranaguá (PR). Tem formação em pedagogia pela Faculdade Pio Décimo, em Sergipe, e em Direito pela Faculdade de Direito de São Carlos, em São Paulo. Pastora evangélica, atuou como assessora parlamentar no Congresso Nacional por mais de 20 anos. Foi ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos no governo de Jair Bolsonaro, entre janeiro de 2019 e abril de 2022. Em março de 2022, filiou-se ao Republicanos, partido pelo qual foi eleita senadora do Distrito Federal no mesmo ano.

Mara Gabrilli é psicóloga e publicitária, nascida em São Paulo. Em 1994, sofreu um acidente de automóvel que a deixou tetraplégica. Três anos depois, fundou um instituto que desenvolve programas de esporte e inclusão. Em 2005, tornou-se secretária da Pessoa com Deficiência da Prefeitura de São Paulo. Em 2007, elegeu-se vereadora na capital paulista. Foi deputada federal por dois mandatos (2011-2019). Em 2018, foi eleita senadora. Integrou o Comitê da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. 

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

Fonte: Agência Senado

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POLÍTICA NACIONAL

Levantamento inédito do DataSenado confirma violência contra trans e travestis

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Agressões, constrangimentos em espaços coletivos, discriminação no mercado de trabalho, problemas no atendimento em órgãos públicos e violência sexual. Essas são algumas das situações relatadas por mulheres transexuais e travestis entrevistadas na 11ª edição da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, do DataSenado. O levantamento mostra que 56% das entrevistadas passaram por situações de violência nos últimos 12 meses.

Conduzida entre maio e julho de 2025 pelo DataSenado, em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência (OMV), a edição mais recente da pesquisa traz um recorte inédito, específico sobre as mulheres trans. Das 43 entrevistadas que se identificaram como trans ou travestis, 40% relataram agressões verbais associadas diretamente à sua identidade de gênero. Outras 17% disseram terem sido agredidas fisicamente e 12% sofreram violência sexual no último ano.

Rolf Regehr, psicólogo e chefe do serviço de pesquisa e análise do DataSenado, ressalva que a falta de dados populacionais oficiais sobre mulheres trans e travestis no Brasil restringe análises com maior precisão estatística. Mas os dados desse novo recorte da pesquisa, explica, ajudam a entender aspectos como a naturalização das violências sofridas, detectada nas entrevistas.

— [Os resultados da pesquisa] são achados exploratórios sobre o grupo entrevistado. A pesquisa, nesse sentido, procura contribuir para uma compreensão mais precisa de aspectos relevantes de suas vivências, como nesse caso, a recorrência e naturalização das violências sofridas — diz Regehr.

Naturalização das agressões

Para o psicólogo, a naturalização das agressões no cotidiano fica clara quando muitas das situações enfrentadas diariamente por essas mulheres sequer são identificadas prontamente como violência. Apenas 4% das entrevistadas afirmaram, inicialmente, ter sofrido violência de gênero. Depois, quando questionadas situações específicas, 56% delas afirmaram ter passado por algumas delas no último ano.

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Foi o medo de passar por situações como essas que fez a escritora Rafaela Miranda, de 37 anos, parar de frequentar certos espaços públicos, como banheiros coletivos.

— Eu não frequento de forma alguma. Prefiro ficar me segurando, porque sei que se eu entrar num banheiro público as pessoas vão começar a olhar de forma diferente, já que não tenho “passabilidade” — diz Rafaela, usando o termo que se refere ao reconhecimento social das mulheres trans como mulheres.

A violência de gênero, no caso de Rafaela, também se mostra no tratamento por pronomes masculinos, mesmo com todos os documentos retificados e a identificação como mulher trans.

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De acordo com a antropóloga Beatriz Accioly, essas exclusões, pela frequência com que acontecem, podem acabar sendo naturalizadas e fazer com que mulheres trans entendam que determinados espaços não são feitos para elas.

— Quando uma mulher é hostilizada na rua, mal atendida em um serviço público ou tem sua identidade constantemente questionada, ela recebe a mensagem de que aquele espaço não foi feito para ela. Esses episódios produzem medo, restringem a circulação e afetam o acesso a direitos — explicou ao DataSenado Beatriz, que é gerente de políticas públicas pelo Fim da Violência Contra Mulheres no Instituto Natura, parceiro no Mapa Nacional da Violência de Gênero.

Mesmo nos serviços públicos, as mulheres trans relatam episódios de mau atendimento e transfobia. É o caso de uma das mulheres entrevistadas pela pesquisa, moradora do Distrito Federal, que relatou dificuldade ao procurar serviços de saúde: “Só por eu falar meu nome de mulher, né? Ele falava meu nome de homem, e eu pedindo pra falar meu nome de mulher, e não queriam me atender como mulher.”

Tornar essas experiências visíveis, explica Vitória Régia da Silva, diretora executiva da organização Gênero e Número — também parceira do Senado no mapa —, é um passo fundamental para ampliar a produção de evidências, fortalecer políticas de proteção e garantir que mulheres trans e travestis sejam incluídas no debate público sobre enfrentamento à violência de gênero.

Violência Doméstica

Das entrevistadas, 47% disseram já ter sofrido violência doméstica. Para 70% das vítimas, a violência afetou o convívio com outras pessoas e para 55%, a rotina diária. A vida profissional (45%) e os estudos (35%) também são prejudicados pela violência, que é, na maior parte das vezes, psicológica. 

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Mercado de trabalho

No mercado de trabalho, a exclusão das mulheres trans e travestis também fica clara. Apesar de ser qualificada, Rafaela tem dificuldade de conseguir emprego e relata que o comportamento dos recrutadores muitas vezes muda quando ela se identifica como uma mulher trans.

— Mandei um currículo para uma empresa. A pessoa começou conversar comigo pelo WhatsApp, me tratou bem, elogiou meu currículo. No final da entrevista, eu sempre aviso que sou transexual, para não ter o constrangimento de chegar no dia da entrevista presencial e ficarem me tratando diferente, né? Assim que eu falei que era transexual, a empresa simplesmente parou de me responder — lamenta.

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A dificuldade relatada por Rafaela aparece nos resultados da pesquisa, com 26% das entrevistadas tendo declarado que não conseguem se sustentar. “Tenho três formações, chego pra fazer entrevista vejo no olhar do entrevistador que não vai me chamar”, disse uma das mulheres entrevistadas, do Paraná.

— Então o que está em avaliação não é a competência, não é a formação, não é o quanto a pessoa estudou, é ela ser trans. São pessoas capacitadas em alguma profissão, mas que não conseguem emprego, ou só conseguem com renda muito baixa — disse Rolf ao comentar o resultado da pesquisa.  

Das mulheres ouvidas no levantamento, 51% se declararam ocupadas e 42% estão fora da força de trabalho. Outras 7% estão desocupadas. Em relação à renda, 56% das mulheres ganham menos que dois salários mínimos, 19% ganham entre dois e seis salários mínimos e 14%, acima de seis. Outras 12% não quiseram ou souberam informar.

Copeira do Senado há dois anos, Scarlety Pereira só teve a primeira carteira de trabalho assinada aos 30 anos. Para ela, é preciso dar oportunidades para que as mulheres trans possam deixar o rótulo de que nasceram para servir, inclusive na prostituição.

— O Senado me deu oportunidade de estudar. Hoje eu faço jornalismo e secretariado. Graças a Deus, esse trabalho me deu a oportunidade de aprender e de poder me colocar em um lugar melhor na sociedade — comemora.

Mapa Nacional

O recorte sobre mulheres trans e travestis estará disponível, a partir de quinta-feira (25), na página “Pesquisa Nacional” do Mapa Nacional da Violência de Gênero, uma parceria entre o Senado, o Instituto Natura e a Gênero e Número, que reuniram seus projetos em uma plataforma pública e interativa com dados sobre a violência de gênero no Brasil.

Criado em 2016 pelo Senado, o Observatório da Mulher contra a Violência reúne, analisa e divulga dados sobre a violência de gênero no Brasil. Em parceria com o Instituto DataSenado, produz e integra informações para subsidiar políticas públicas e alimentar o intercâmbio entre as principais instituições envolvidas no enfrentamento à violência contra mulheres.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

Fonte: Agência Senado

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