“Partido Digital Bolsonarista”: professor da Unicamp analisa força política da direita na internet
Marcos Nobre afirma que a direita ligada a Bolsonaro consolidou uma rede política nas plataformas digitais, enquanto iniciativas como o “Exército de Lula”, de André Janones, ainda não formam uma estrutura equivalente.

O professor de filosofia política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisador Marcos Nobre avalia que o bolsonarismo construiu uma estrutura de mobilização política nas redes sociais que não encontra equivalente na esquerda brasileira. A análise foi apresentada em entrevista à BBC News Brasil e tem como base estudos sobre o chamado “Partido Digital Bolsonarista”.
Segundo Nobre, o movimento ultrapassa a atuação individual de políticos e influenciadores nas plataformas digitais. A estrutura, na avaliação do pesquisador, reúne organização, hierarquia, mobilização de apoiadores, agenda política e articulação com partidos tradicionais para ampliar sua representação institucional.
O conceito é tema do livro O Partido Digital Bolsonarista, organizado por Nobre e pela professora Ana Claudia Teixeira. A tese sustenta que o ecossistema político ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro funciona como uma espécie de legenda informal, mesmo sem registro próprio na Justiça Eleitoral.
Na avaliação do professor, a influência dessa rede pode ser observada na eleição de candidatos que construíram sua projeção pública nas redes sociais e passaram a utilizar as plataformas como parte central de sua atuação política. Entre os exemplos citados está o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG).
Esquerda ainda atua de forma fragmentada
Nobre reconhece que a esquerda também elegeu representantes com forte presença digital, mas considera que essas iniciativas permanecem dispersas, sem a mesma articulação política atribuída ao campo bolsonarista.
O pesquisador compara essa organização a um arquipélago, formado por grupos que mantêm algum nível de conexão, mas não constituem uma estrutura unificada.
Um dos exemplos analisados é o canal “Exército de Lula”, promovido pelo deputado federal André Janones (Rede-MG). Apesar de reunir milhões de inscritos no WhatsApp, a iniciativa, segundo Nobre, não representa necessariamente a formação de uma organização digital permanente.
Para o professor, o modelo tem características de mobilização eleitoral de curto prazo e depende da liderança de Janones. Ele também avalia que o PT dificilmente aceitaria a manutenção de uma estrutura de comando político independente da hierarquia partidária.
Eleições podem mudar a estratégia da esquerda
Na análise de Nobre, a campanha eleitoral de 2026 pode representar um ponto de inflexão na maneira como setores da esquerda compreendem o papel das redes sociais na disputa política.
O professor avalia que a percepção sobre o nível de organização digital da direita radical estaria ganhando força nesse campo político, o que poderia estimular mudanças nas estratégias de comunicação e mobilização.
A discussão evidencia como as plataformas digitais se tornaram parte relevante da disputa por votos, da formação de lideranças e da definição da agenda pública no Brasil.
As conclusões apresentadas por Nobre correspondem à interpretação do pesquisador sobre a organização política nas redes. A existência de uma estrutura digital bolsonarista com características partidárias é uma tese acadêmica, e não o reconhecimento de um partido formal pela legislação eleitoral brasileira.
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