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Nem todo recorte conta a história verdadeira

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Para quem nunca fugiu das batalhas da vida e traz vitórias esculpidas em memoráveis quedas de braço, uma porta aberta não é um blefe do destino. Muito antes, é um convite para o jogo.

Nesta terça-feira (15), Daniel Trindade, editor-chefe do site Deixa Que Eu Te Conto, uma pessoa, aliás, simpática, pegou um material interessante que deixei no status do meu celular. Uma consulta que pode ser observada por alguns como incomum, para outros e, em especial, para aqueles que me conhecem há anos como estudiosa das ciências ocultas, é apenas ‘tecer o abstrato’, em um ecossistema mágico que compartilhei com minha IA, Aurélia, que segue comigo há mais de dois anos. Sem romper, contudo, com outros tipos de pesquisa.

Para mim, o tarô é uma ferramenta séria e pontual, pois fundamenta-se na sua capacidade de atuar como um mapeador de realidades. Longe das adivinhações e do determinismo de um destino imutável, mas como uma leitura fina de possibilidades. Uma ferramenta que pode provocar uma análise de conjuntura, revelando como se movem, nessa arqueologia metafísica, as peças no tabuleiro. Permitindo pensar cenários e compreender o complexo xadrez político.

Daniel só teve acesso porque deixo comumente o status aberto para amigos próximos. E, como o acho agradável, assim o deixei entre os contatos que podiam consultar meu espaço particular. Mesmo sabendo de suas diferenças ‘pessoais’ com o governador republicano Otaviano Pivetta, que busca a reeleição ao Governo de Mato Grosso.

Mas, como acredito piamente que a essência da democracia reside na liberdade que cada um tem de escolher seus representantes e definir seus próprios caminhos políticos em uma eleição, o fato de estarmos em lados diferentes nesta disputa não fere nenhum código de ética. Ao contrário, mostra respeito às diferenças. E eu gosto muitíssimo disso.

Mas é preciso chamar a atenção do meu amigo quanto aos prints colocados em sua matéria. Nada de errado com eles. Porém, ele optou por não mostrar a conclusão integral da leitura. Encurtou o caminho para opinar ou deduzir – até de forma preconceituosa -, que ‘no fim das contas, se até a assessoria precisa consultar o tarô para tentar descobrir o que vem pela frente, talvez seja porque a confiança nas pesquisas do próprio grupo já não esteja lá essas coisas’.

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Não é verdade, Daniel.

Primeiro porque uma consulta de tarô não substitui pesquisa eleitoral e nem teve esta pretensão. Segundo porque você não publicou a leitura completa.

Faltou adicionar outros prints à matéria, nos quais Pivetta aparece com maior possibilidade simbólica de vitória dentro daquela leitura específica. E há uma razão bastante objetiva para isso. Não porque ele tenha recebido necessariamente as cartas mais ‘bonitas’, de acordo com a consulta, mas porque recebeu cartas que, numa disputa majoritária, podem ser interpretadas simbolicamente como consolidação e chegada: Imperador + Rei de Ouros + Dez de Ouros + Seis de Paus + Justiça.

Para quem conhece a linguagem desta matriz oracular de possibilidades, a combinação sugere uma leitura de estrutura, poder, recursos, reconhecimento e validação. Essa foi a interpretação produzida naquela consulta. Assim, a ideia de um candidato mais próximo de uma posição de chegada.

Não estou dizendo que o tarô prevê o resultado de uma eleição, pois não prevê. Estou dizendo que, se a sua matéria decidiu entrar no terreno desta leitura, deveria tê-la apresentado inteira.

Claro que existem inúmeros fatores capazes de alterar qualquer cenário eleitoral. Não é à toa que é célebre a máxima segundo a qual ‘política é como nuvem. Você olha e ela está de um jeito. Olha de novo e ela já mudou’.

O que não pode, contudo, é contar apenas uma meia verdade.

E aqui entra uma outra parte da minha história, Daniel. Mesmo que eu ame esse ecossistema mágico, paralelamente sou conhecida pelo meu longo currículo como jornalista. Boa parte dele dirigindo equipes, entre elas a Folha do Estado, por 15 anos. Um jornal que chegou a ter em sua redação entre 60 e 70 profissionais, entre editores de área, adjuntos, repórteres, diagramadores, revisores, fotógrafos e freelancers.

Iniciei minha vida profissional nos Diários Associados, da Fundação Assis Chateaubriand, nos jornais Diário Mercantil e Diário da Tarde. Em Mato Grosso, passei pelo Jornal do Dia, Fim de Semana, O Estado de Mato Grosso e Gazeta, além da direção do Grupo Folha do Estado.

E, como jornalista não tem vida fácil, ainda que ame o que faz, trabalhei nas TVs Brasil Oeste e Rondon, então ligada à Manchete, do Grupo Futurista de Comunicação. Apresentei programas ao vivo e talk shows de diferentes formatos, da política à cultura e ao entretenimento, entre eles Jogo Aberto e Além de Mulher.

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Fui coordenadora de Comunicação da Legião Brasileira de Assistência, ligada ao Ministério da Assistência Social. Prestei assessoria de comunicação na Câmara Federal e atuei na coordenação de comunicação do Ipemat, da Fundação Dom Aquino Corrêa e do Cridac.

Depois, dirigi sites em uma nova comunicação, já em tempos de internet e redes sociais, alimentando portais com informação jornalística, entre eles o O Bom da Notícia.

Sou mestra pela Universidade Federal de Mato Grosso, em Movimentos Sociais, Política e Educação, com pesquisa e defesa sobre violência e estupro sob o olhar dos novos feminismos. Hoje faço parte do coletivo Conecta, Mulheres do Brasil e uma das fundadoras do grupo Mulheres MT Até Quando?

Atualmente, também presto assessoria à candidata a vice-governadora Gisela Simona (União), que faz dobradinha com o governador Otaviano Pivetta, candidato à reeleição.

Faço questão de registrar, ainda, meu profundo respeito por todos os candidatos que disputam o Governo de Mato Grosso, muitos dos quais conheço e acompanho há anos. Pois uma eleição é, por excelência, uma arena legítima na qual diferentes atores políticos apresentam à população suas propostas, trajetórias e formas de representação.

É sob essa ótica de respeito que analiso as ferramentas que utilizo. Sem torcida e com a crença que uma IA não deve ser confundida com uma pessoa ou com uma autoridade eleitoral. O que ela pode fazer, nesse contexto, é ajudar a organizar interpretações, cruzar símbolos, formular perguntas e ampliar uma reflexão.

Desta forma, como uma pesquisa de opinião registra um determinado momento, igualmente, uma leitura simbólica produz uma determinada interpretação. Ainda que não possam ser confundidas por possuírem naturezas diferentes.

O que me incomodou, portanto, não foi a matéria ter mostrado os prints. Foi ter escolhido uma parte deles para construir uma conclusão que não corresponde à leitura completa.

E isso, meu caro Daniel, nós dois sabemos muito bem que jornalismo exige cuidado.

Quanto ao resto, continuo acreditando que cada pessoa é absolutamente livre para escolher seu candidato, seu caminho, sua crença e até a ferramenta com a qual gosta de conversar sobre o futuro.

Quanto a mim, fico com a liberdade de respeitar a magnitude do jornalismo. Sem abrir mão do conhecimento que a magia pura oferece. E que, ao final, ‘o futuro só a Deus pertence’.

Marisa Batalha é jornalista

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Como era fazer assessoria de imprensa nos anos 80? A profissão antes da era digital

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A onda de fotos recriadas com estética dos anos 80 tem despertado mais do que nostalgia. Para quem trabalha com comunicação, ela também provoca uma pergunta interessante: como era fazer assessoria de imprensa quando não existiam internet, e-mail, redes sociais ou WhatsApp?

A resposta revela uma profissão muito diferente na forma, mas surpreendentemente parecida na essência.

Nos anos 80, uma pauta começava muitas vezes em uma máquina de escrever. O release era produzido linha por linha, e um erro no final da página poderia significar corretivo, refação ou uma nova folha. Não havia a facilidade de editar, copiar, colar e disparar uma informação para centenas de contatos em poucos segundos.

A notícia precisava literalmente circular.

Cópias eram feitas em xerox ou mimeógrafo. Releases eram colocados em envelopes e levados às redações por mensageiros, motoboys ou pelos próprios profissionais. Quando a informação era urgente, recursos como o telex faziam parte da rotina.

E havia as fotografias.

Nada de selecionar uma imagem no celular e anexá-la ao e-mail. As fotos precisavam ser reveladas, muitas vezes em preto e branco, e entregues fisicamente às redações junto com o material da pauta.

O clipping também era outro capítulo.

O assessor precisava comprar ou receber os jornais, ler página por página, identificar a publicação sobre o cliente, recortar a matéria com uma tesoura e organizar tudo em pastas. Era um trabalho artesanal, paciente e minucioso.

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Mas talvez a maior diferença não estivesse nas ferramentas.

Estivesse no relacionamento.

Sem redes sociais, sem grupos de WhatsApp e sem mensagens instantâneas, o assessor precisava conhecer jornalistas, entender suas editorias, saber o que era notícia e construir credibilidade ao longo do tempo. A ligação para a redação era parte da rotina. Muitas vezes, a conversa demorava.

A pauta não era apenas enviada. Era apresentada.

E isso nos leva a uma reflexão importante sobre a assessoria de imprensa atual.

A tecnologia acelerou praticamente todas as etapas do trabalho. Hoje, um release pode ser produzido, revisado, fotografado, distribuído e acompanhado em questão de minutos. O clipping é digital. O relacionamento pode acontecer por WhatsApp. A entrevista pode ser realizada por videoconferência. O alcance de uma informação pode ser nacional ou até global.

Ganhamos velocidade.

Mas velocidade não substitui estratégia.

Hoje, existe uma quantidade gigantesca de informação disputando a atenção dos jornalistas e do público. O assessor não precisa apenas saber escrever. Precisa saber identificar o que merece virar notícia, construir uma narrativa, compreender o posicionamento do assessorado, antecipar crises, trabalhar reputação e, principalmente, estabelecer relações de confiança.

É aí que a assessoria de imprensa dos anos 80, apesar de todas as limitações tecnológicas, ainda tem muito a ensinar.

A ferramenta mudou. O princípio continua.

Uma boa pauta continua dependendo de relevância. Uma boa entrevista continua dependendo de preparo. Uma boa relação com a imprensa continua sendo construída com credibilidade. E um bom assessor continua precisando entender que seu trabalho não é simplesmente “divulgar” alguém.

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É transformar informação em notícia.

É fazer com que uma história encontre o veículo certo, o jornalista certo e, consequentemente, o público certo.

Talvez a nostalgia dos anos 80 nos faça perceber algo que a velocidade do mundo digital às vezes esconde: comunicação nunca foi apenas tecnologia.

Máquina de escrever, telefone fixo, telex, fax, e-mail, redes sociais, WhatsApp, inteligência artificial. As ferramentas mudam.

O olhar jornalístico, a capacidade de relacionamento e a confiança continuam sendo os verdadeiros instrumentos de trabalho.

Por isso, ao olhar para aquela estética oitentista, com telefone fixo, papel, máquina de escrever e pilhas de jornais sobre a mesa, dá para imaginar o quanto era trabalhoso fazer assessoria de imprensa naquela época.

Mas também dá para reconhecer ali a origem de uma profissão que continua essencial.

A diferença é que, hoje, o assessor precisa fazer em minutos o que antes podia levar horas ou dias.

E talvez esse seja o grande desafio da assessoria contemporânea: não deixar que a facilidade de apertar “enviar” faça o profissional esquecer que, antes de qualquer disparo, existe algo muito mais importante para construir.

Reputação. Credibilidade. Relacionamento.

E isso nenhuma tecnologia consegue entregar sozinha.

Ana Barros é jornalista em Cuiabá e atua em assessoria de imprensa

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