OPINIÃO

20 anos depois a Lei Maria da Penha ainda nos faz a mesma pergunta: que país queremos ser?

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Vinte anos depois de sua promulgação, a Lei Maria da Penha continua sendo um dos maiores marcos civilizatórios da história recente do Brasil. Não apenas porque criou instrumentos de proteção às mulheres vítimas de violência doméstica, mas porque rompeu um pacto silencioso secular que naturalizava o sofrimento feminino dentro de casa.

E durante este tempo repetiu-se, quase como um mandamento cultural, que ‘em briga de marido e mulher ninguém mete a colher’. A frase foi uma autorização coletiva para a omissão, transformando agressões em problemas privados, ao retirar do Estado a responsabilidade de proteger mulheres e tornar o silêncio um aliado da violência.

Mas a Lei Maria da Penha mudou essa lógica. Ela afirmou, de forma definitiva, que violência doméstica não pertence ao ambiente privado. Que é crime, sobretudo, uma violação de direitos humanos. Por isso, celebrar seus 20 anos significa reconhecer uma conquista histórica, mas sem esquecer de  perguntar por que, duas décadas depois, tantas mulheres ainda continuam vivendo com medo.

Os números respondem à pergunta, ao mostrar que convivemos com uma realidade brutal. E que mulheres seguem sendo assassinadas dentro de casa, perseguidas por ex-companheiros, agredidas física e psicologicamente e, mais recentemente, atacadas também nas redes sociais e nos espaços de poder.

Não considero isso uma coincidência. Muitos estudiosos apontam que parte dessa violência representa uma reação ao avanço feminino. Quanto mais mulheres ocupam universidades, empresas, parlamentos, governos e posições de liderança, mais determinados setores reagem tentando restabelecer antigas relações de poder.

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É nesse contexto que cresce também a violência política de gênero. Porque quando uma mulher é insultada, desacreditada, ridicularizada ou ameaçada apenas por exercer um mandato, disputar uma eleição ou ocupar um espaço de liderança, não estamos diante de um conflito eleitoral comum. Estamos diante de uma tentativa deliberada de expulsar mulheres da vida pública.

E conheço essa realidade não apenas pelos estudos ou pelas estatísticas, mas pela experiência de quem percorreu um caminho que muitos diziam não ser possível, como mulher e negra.

Sou filha de uma família simples. Construí minha trajetória no Procon, onde permaneci por mais de duas décadas defendendo consumidores. Depois tive a oportunidade de representar Mato Grosso na Câmara dos Deputados durante 33 meses. E levei comigo uma convicção que nunca abandonei: algumas pautas não pertencem à direita nem à esquerda, mas à humanidade. E proteger mulheres é uma delas.

Foi com essa compreensão que assumi a relatoria do Pacote Antifeminicídio, transformado em lei em 2024 e responsável por endurecer significativamente a resposta penal aos crimes de feminicídio. Também atuei em propostas voltadas ao fortalecimento da rede de proteção, da prevenção, da assistência às vítimas e do enfrentamento à violência política de gênero.

Sempre defendi que uma boa lei só transforma vidas quando consegue sair do papel. A Lei Maria da Penha talvez seja o maior exemplo disso.

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Temos uma das legislações mais avançadas do mundo, mas sua eficácia ainda depende da capacidade do Estado de garantir delegacias especializadas, casas de acolhimento, equipes multidisciplinares, patrulhas especializadas, atendimento humanizado e cumprimento rigoroso das medidas protetivas.

Não basta aprovar leis. É preciso fazê-las chegar onde a violência acontece.

Também acredito que proteger mulheres significa ampliar sua autonomia. Significa garantir acesso ao trabalho, à renda, à educação, à saúde, à informação e à representação política. Porque a violência não começa apenas quando aparece uma agressão física. Ela nasce, muitas vezes, na dependência econômica, no isolamento, na discriminação e na tentativa permanente de controlar a vida feminina.

Ao longo dessas duas décadas avançamos muito. Hoje denunciamos mais, acolhemos melhor, debatemos mais e reconhecemos direitos que antes sequer eram nomeados. Mas ainda estamos longe de considerar essa missão concluída. Pois enquanto existir uma mulher vivendo com medo dentro da própria casa, nenhuma de nós poderá dizer que venceu.

Os 20 anos da Lei Maria da Penha merecem ser celebrados.
Mas merecem, acima de tudo, renovar nosso compromisso coletivo para que nenhuma mulher tenha sua liberdade, sua dignidade ou sua vida interrompidas pela violência. Porque proteger mulheres nunca foi apenas uma política pública.
É uma escolha civilizatória.

Gisela Simona é advogada, servidora e busca a reeleição na Câmara Federal

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O recomeço não tem idade

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Existe uma beleza silenciosa nos recomeços. Durante muito tempo, fomos levados a acreditar que a vida seguia um roteiro quase imutável: estudar, trabalhar, construir uma família, aposentar-se e, aos poucos, desacelerar. Mas a vida real raramente respeita roteiros. Ela nos convida a mudar, reinventar, descobrir novos talentos e encontrar novos propósitos, mesmo quando muitos acreditam que o tempo das grandes mudanças já passou.

A maturidade tem mostrado exatamente isso. Recomeçar não significa apagar a própria história. Pelo contrário. É justamente a história que nos dá coragem para começar outra vez. Cada desafio enfrentado, cada conquista alcançada, cada perda superada e cada sonho adiado tornam-se matéria-prima para construir uma nova versão de nós mesmos. Talvez por isso tantas mulheres estejam vivendo uma verdadeira revolução depois dos 50 e dos 60 anos. Em vez de enxergar essa fase como encerramento de ciclos, elas a transformam em um tempo de liberdade. Escrevem livros. Pintam telas. Viajam sozinhas. Aprendem novos idiomas.Criam empresas. Descobrem a arte. Iniciam projetos sociais. Voltam a estudar.E, principalmente, passam a fazer escolhas menos baseadas nas expectativas dos outros e mais conectadas aos próprios desejos. Não se trata apenas de uma percepção. Os números confirmam essa transformação.

Dados do Sebrae mostram que o Brasil já reúne mais de 4,3 milhões de empreendedores com 60 anos ou mais, um crescimento superior a 50% em pouco mais de uma década. Entre eles, cresce de forma significativa a presença feminina, mostrando que experiência, conhecimento e sensibilidade também são ativos importantes para inovar, gerar renda e criar negócios com propósito. É um movimento que acompanha uma sociedade que vive mais e, felizmente, começa a compreender que longevidade não precisa ser sinônimo de limitações.  Penso muito nisso quando conheço histórias de mulheres que decidiram recomeçar. Elas não ignoram as marcas do tempo. Ao contrário.
Transformam essas marcas em força.

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Descobrem que a maturidade oferece algo que a juventude muitas vezes ainda procura: clareza. Clareza para dizer “não”.
Para mudar de direção. Para abandonar o que já não faz sentido. E para investir tempo naquilo que realmente alimenta a alma. Histórias como a dela nos lembram que envelhecer não significa diminuir possibilidades. Significa ampliar perspectivas.Existe uma liberdade muito especial que chega com a maturidade.Ela nos faz compreender que não precisamos mais provar nosso valor o tempo inteiro. As comparações perdem importância. As cobranças ficam menores.

A ansiedade de corresponder às expectativas dos outros dá lugar à tranquilidade de viver de acordo com aquilo que faz sentido para nós.
É nesse momento que muitos sonhos, antes colocados na gaveta, finalmente encontram espaço para acontecer.
Talvez o maior privilégio da maturidade seja justamente esse: perceber que ainda há tempo. Tempo para aprender. Para criar. Para amar. Para empreender. Para cuidar de si. Para começar de novo.

Enquanto houver curiosidade para descobrir, disposição para aprender e coragem para dar o primeiro passo, sempre existirá um novo capítulo esperando para ser escrito. Porque florescer nunca depende da idade.Depende apenas da decisão de acreditar que ainda existe muito por viver.

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Por: Isolda Risso, terapeuta criativa, palestrante e empreendedora

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