POLÍTICA NACIONAL
Após professores, garis, médicos e outros esperam por votação de piso salarial
Publicado em
28 de maio de 2026por
Da Redação
Nas últimas semanas, o Plenário do Senado virou palco de uma mobilização crescente: senadores de diferentes partidos têm pedido ao presidente da Casa, Davi Alcolumbre, a votação de projetos que garantem piso salarial a categorias ainda sem remuneração mínima ou defasadas, como garis, enfermeiros e profissionais de educação. Davi prometeu convocar uma reunião de líderes para organizar as demandas e avaliar as fontes de financiamento, mas ainda não há data definida.
O movimento ganhou força durante os debates em torno da Medida Provisória (MP) 1.334/2026, aprovada nesta semana, que reajusta o piso dos professores da educação básica pública para R$ 5.130,63 em 2026. A tramitação de uma proposta que cria piso para os demais funcionários de escola também alimentou a discussão, e o tema da valorização salarial passou a aparecer com mais frequência nos microfones do Plenário.
Ao todo, o Senado concentra pelo menos 20 propostas entre projetos de lei e emendas à Constituição que tratam de remuneração mínima para diferentes categorias. A Constituição já garante aos trabalhadores o direito a um piso compatível com a complexidade de suas funções, mas a questão que trava o avanço dessas propostas é sempre a mesma: de onde virão os recursos.
O recado do presidente tem sido o mesmo a cada novo apelo: cautela. Davi Alcolumbre disse apoiar a valorização das categorias, mas insiste que a criação de pisos salariais precisa passar por negociação com os três níveis de governo e que as contas precisam fechar.
Reunião pode definir
Durante a sessão do último dia 20, ele anunciou que vai convocar uma reunião de líderes para organizar as demandas. Para o presidente, o encontro será antes de tudo uma chance de alinhar as fontes de financiamento.
— Muitas das vezes, as fontes que estão colocando para suprir a nova demanda da legislação são as mesmas. Então é bom a gente fazer a reunião para esclarecer quais são as fontes de receita que vão cobrir essas despesas — acrescentou.
Os salários dos profissionais da educação básica na rede pública são pagos por estados e municípios, principalmente com recursos do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica, principal mecanismo de financiamento da educação pública no país) e, quando necessário, com complementações da União. A preocupação de muitos gestores é não conseguir absorver os reajustes.
Em audiência pública na comissão mista que analisou a MP, o prefeito de Muriaé (MG) e integrante da Frente Nacional de Prefeitas e Prefeitos, Marcos Guarino, relatou que em muitas prefeituras o Fundeb se esgota antes do fim do ano.
— O grande problema que a gente sente é que, quando chegam setembro e outubro, o dinheiro do Fundeb praticamente já acabou. A gente acaba investindo muito mais do que os 25% de educação, muito mais do que os 15% de saúde, e mais a folha. Quer dizer, o município vai ficando muito estrangulado — afirmou.
Magistério
Aprovada na terça-feira (26), a MP1.334/2026 foi editada pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, em 22 de janeiro e fixou o piso dos professores da educação básica pública em R$ 5.130,63 para 2026 — alta de 5,4% sobre os R$ 4.867,77 de 2025, com ganho real de 1,5 ponto percentual acima da inflação medida pelo INPC. O texto também muda o critério de atualização do piso.
Como o texto foi alterado pela relatora, senadora Professora Dorinha Seabra (União-TO), a MP 1.334/2026 foi convertida no PLV 4/2026 e seguiu para sanção.
A relatora, senadora Professora Dorinha Seabra (União-TO), incluiu emendas que ampliam o piso para professores temporários, exigem transparência na memória de cálculo e fixam expressamente o valor de R$ 5.130,63 no texto — para evitar judicialização. O impacto estimado da nova regra para 2026 é de R$ 6,4 bilhões, se cumprida por todos os entes federativos.
Funcionários de escolas
Enquanto o piso dos professores avança, merendeiras, auxiliares de limpeza e secretários escolares ainda aguardam uma definição. O PL 2.531/2021, aprovado pela Câmara em dezembro de 2025, propõe piso equivalente a 75% do piso do magistério — cerca de R$ 3.847 pelo valor atual — para profissionais de apoio das escolas públicas. O texto depende de votação no Senado.
A proposta mobilizou senadores na semana passada. Teresa Leitão (PT-PE) defendeu que a aprovação do piso do magistério abre caminho para os demais:
— Nós temos já um projeto de piso negociado que envolveu os entes estaduais e municipais. Portanto, a gente tem mais previsibilidade para votar o piso de quem não é do magistério — afirmou.
Omar Aziz (PSD-AM) reforçou o argumento:
— Nós reclamamos muito da qualidade da educação, mas a escola depende desde a pessoa com maior quantidade de títulos até quem está ali ajudando a mantê-la limpa e funcionando — disse.
Dorinha lembrou que, no caso da educação, há fonte específica de financiamento — o Fundeb —, o que tornaria viável uma implementação gradual:
— É possível fazer de maneira gradativa para que eles também tenham o seu piso assegurado.
Garis e margaridas
Na mesma sessão, o senador Fabiano Contarato (PT-ES) voltou a pedir a votação do PL 4.146/2020, do senador Angelo Coronel (Republicanos-BA), que cria piso salarial de R$ 3.036 para garis e margaridas, trabalhadores que atuam na varrição, coleta de resíduos e acondicionamento de lixo em espaços públicos. O texto já foi aprovado pela Câmara e aguarda pauta no Senado.
Contarato tem sido um dos senadores mais insistentes pelo avanço da proposta, argumentando que a categoria presta um serviço essencial e segue desvalorizada.
— São homens e mulheres que trabalham na invisibilidade e que precisam dessa resposta. Eu quero me colocar à disposição para que a gente faça uma reunião o mais rápido possível para deliberar sobre esse projeto — disse o senador.
Médicos e cirurgiões-dentistas
Um dos projetos que mais avançou recentemente é o PL 1.365/2022, da senadora Daniella Ribeiro (PSD-PB), que fixa em R$ 13.662 o piso de médicos e cirurgiões-dentistas para jornada de 20 horas semanais. Aprovado na CAS no dia 20, aguarda turno suplementar na comissão e segue para a Câmara (caso não haja recurso para votação no Plenário). Segundo o relator da proposta, senador Fernando Dueire (PSD-PE), o projeto corrige uma distorção histórica, já que a legislação que hoje trata da remuneração desses profissionais é de 1961.
— Valorizar médicos e cirurgiões-dentistas é reconhecer que a qualidade da saúde oferecida à população passa diretamente pela valorização de quem está na linha de frente — afirmou durante a votação na Comissão de Assuntos Sociais.
O caso ‘Enfermagem’
O caso da enfermagem talvez seja o exemplo mais emblemático da dificuldade de transformar esses projetos em medidas viáveis dentro do orçamento público. Em julho de 2022, o Congresso promulgou a Emenda Constitucional 124, criando o piso nacional da categoria. Semanas depois, a Lei 14.434/2022 fixou os valores: R$ 4.750 para enfermeiros, R$ 3.325 para técnicos e R$ 2.375 para auxiliares e parteiras.
O STF suspendeu a aplicação logo em seguida, por falta de indicação da fonte dos recursos. Em dezembro de 2022, o Congresso promulgou a Emenda Constitucional 127, prevendo repasses da União com recursos do Fundo Social e, em maio de 2023, Lula sancionou a Lei 14.581, abrindo crédito especial de R$ 7,3 bilhões. O piso finalmente entrou em vigor.
Hoje, no setor público, a União faz repasses complementares para garantir os valores mínimos. No privado, a aplicação é desigual e depende de negociação entre sindicatos e empregadores. O STF ainda não encerrou o julgamento sobre a constitucionalidade da lei.
No Senado, a PEC 19/2024 propõe que o cálculo do piso da categoria considere uma jornada de 36 horas semanais. Hoje, os valores da remuneração são calculados com base em uma jornada de 44 horas: quem trabalha menos recebe proporcionalmente menos. A proposta, já aprovada na CCJ, aguarda votação no plenário. A autora, senadora Eliziane Gama (PSD-MA), lembrou o custo humano da pandemia ao defender a proposta:
— Hoje é um dia histórico para o Brasil em relação aos profissionais de enfermagem. Nós perdemos centenas de profissionais para a covid. É uma reparação que a sociedade brasileira precisa fazer — disse durante a votação na CCJ.
Outros projetos em tramitação
Além das categorias citadas, outras também aguardam na fila. O Senado concentra propostas que vão de psicólogos e nutricionistas a conselheiros tutelares e policiais militares, em diferentes estágios de tramitação. Confira abaixo:
|
Categoria |
Proposta |
Piso previsto |
Situação |
|
Médicos cirurgiões-dentistas |
Incluir na CF |
Aguarda despacho |
|
|
Fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais |
R$ 4.650 / 30h |
Aguarda análise de emendas |
|
|
Incluir na CF |
Pronta para votação na CCJ |
||
|
R$ 4.800 / 30h |
Aguarda relator na CCJ |
||
|
Psicólogos |
R$ 4.750 / 30h |
Pronta para votação na CDH |
|
|
Nutricionistas |
R$ 5.000 / 30h |
Aguarda despacho |
|
|
R$ 5.000 / 30h |
Aguarda despacho |
||
|
Operadores de telemarketing |
R$ 1.283,59 (valor de 2022) |
Com relator na CAS |
|
|
Técnicos e auxiliares em saúde bucal |
R$ 1.200 (valor de 2019) |
Aguarda providências na CAS |
|
|
R$ 2.588 |
Aguarda relator na CCJ |
||
|
Assistentes sociais |
R$ 7.315 / 30h |
Aguarda relator na CCJ |
|
|
Conselheiros tutelares |
4 salários mínimos |
Aguarda relator na CCJ |
|
|
Profissionais de saúde |
1 salário mínimo / 30h |
Aguarda despacho |
|
|
Profissionais de saúde |
Jornada de 36h |
Na CAE com relator |
|
|
Médicos veterinários |
R$ 7.800 / 44h |
Aguarda despacho |
|
|
Policiais militares e bombeiros |
Incluir na CF |
Aguarda despacho |
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
POLÍTICA NACIONAL
Brasil precisa se preparar para o El Niño, indica debate
Published
18 minutos agoon
28 de maio de 2026By
Da Redação
O Brasil precisa se preparar para enfrentar o El Niño. Há previsões de que o fenômeno — que em geral provoca chuvas intensas na Região Sul e seca acentuada no Norte e no Nordeste — seja muito mais intenso neste ano. O país já possui instrumentos suficientes para prever esses eventos climáticos, mas ainda precisa aperfeiçoar suas políticas de prevenção.
Essas foram algumas das avaliações apresentadas nesta quinta-feira (28) durante sessão temática promovida pelo Senado. O debate, que foi conduzido pelo senador Esperidião Amin (PP-SC), contou com a participação de parlamentares, especialistas e representantes do governo.
O El Niño é causado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, que altera a circulação dos ventos e o clima global. Para este ano, há previsões que indicam impactos mais fortes a partir do segundo semestre.
Nova realidade
Durante a sessão, o senador Hermes Klann (PL-SC) citou a estimativa de que o El Niño deve se intensificar nos próximos meses e pode fazer de 2027 o ano mais quente já registrado no planeta — a projeção foi feita por pesquisadores do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo.
Hermes Klann, que participou do debate de forma on-line, ressaltou que o El Niño já é um fenômeno conhecido e que a ocorrência de desastres naturais deixou de ser exceção no Brasil.
— O Brasil não está mais lidando com eventos climáticos isolados; está lidando com uma nova realidade climática. E aqui está o ponto central deste debate: nós já sabemos disso. A pergunta é: o que faremos com essa informação? O problema não é a falta de previsão; o problema é a falta de prevenção [por parte do governo] — alertou ele.

Esperidião Amin destacou que o objetivo do encontro foi justamente coletar informações e discutir ações de prevenção para proteger, por exemplo, a agricultura, o fornecimento de água potável e as pessoas que vivem em áreas de encostas.
— Nosso foco é agir para prevenir e reduzir os possíveis danos do El Niño que se anuncia. Ou seja: o que fazer como prevenção e o que fazer após a possível ocorrência de desastres — explicou.
Ele lembrou que o tema também foi debatido na quarta-feira (27), durante audiência pública na Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado (CCT). Na ocasião, os participantes discutiram como a ciência pode ser utilizada para reduzir vulnerabilidades diante desse fenômeno.
Aquecimento global
O pesquisador Carlos Nobre enfatizou que as previsões futuras trazem muita preocupação porque o fenômeno acontece em um cenário de aumento gradual da temperatura global.
— O ano de 2024 bateu o recorde de 1,55 grau [de aumento da temperatura do planeta]. E esse fator do aquecimento global é que faz todos os fenômenos climáticos, existentes há milhões de anos, serem sempre superados. Quando a temperatura do planeta está mais alta, temos muito mais energia na atmosfera, e isso gera os fenômenos meteorológicos climáticos que batem cada vez mais recordes — explicou.
O pesquisador reiterou que as pesquisas científicas apontam para uma alta probabilidade de o El Niño ocorrer já neste ano.
— Agora (em maio, junho, julho) já temos 92% de probabilidade de começar um El Niño. Para outubro, novembro e dezembro deste ano, a probabilidade é de 98% de ele vir forte ou muito forte. Então temos de nos preparar muito bem — advertiu.
Riscos
Carlos Nobre acrescentou que centenas de milhares de pessoas, em estados como Rio Grande do Sul e Santa Catarina, vivem em áreas de risco e em encostas.
Representante do Ministério da Ciência e Tecnologia, Regina Célia dos Santos também reforçou a preocupação com os eventuais impactos sobre os estados do Sul. Ela também alertou para os riscos de aumento das queimadas em áreas como a Amazônia. Regina é diretora do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais desse ministério.
Apesar de reconhecer que várias instituições estão preocupadas com o El Niño, ela garantiu que o governo está monitorando o fenômeno e está se preparando para minimizar os possíveis impactos nas diferentes regiões do país.
— É crucial que nós acompanhemos essa situação rotineiramente. As últimas projeções liberadas pelos centros internacionais apontam um cenário de um El Niño forte, mas ainda não de um El Niño muito forte nem severamente forte. Isso não significa que ele não possa evoluir e resultar em cenários realmente mais preocupantes. Estamos avaliando os possíveis impactos nas diferentes regiões do Brasil e estamos informando, a partir desses estudos, quais as regiões que serão mais ou menos impactadas, ou por chuvas demais ou por chuvas de menos — disse Regina.
Ações efetivas
O senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS) salientou que a preocupação em relação ao seu estado é crescente, especialmente após as enchentes e a tragédia de 2024. Para ele, o foco principal do governo deve estar em práticas efetivas.
— Nossas cidades não foram feitas para enfrentar catástrofes climáticas. Temos de trabalhar, dentro do Congresso Nacional, por uma obrigatoriedade de que novas obras públicas financiadas com recursos federais adotem parâmetros climáticos atualizados, para começar a parar essas catástrofes. Precisamos cobrar. Os gestores públicos têm de compreender que não basta escrever um “planinho bonito” no papel. Eles devem verificar se aquele plano é exequível — defendeu Mourão.
Para Hermes Klann, a discussão sobre o tema também tem de envolver a sociedade civil organizada, entidades do setor produtivo e instituições sociais — inclusive, argumentou ele, porque parte da população parece não conhecer o assunto.
Esperidião Amin informou que as recomendações apresentadas no debate serão aproveitadas na próxima edição da cartilha do Senado sobre o tema — a primeira foi publicada em 2023.
Também participaram da sessão temática desta quinta-feira o coordenador-geral de ciências da terra do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), José Antônio Aravéquia, o deputado federal Carlos Chiodini (MDB-SC), o prefeito de Navegantes (SC), Ricardo Muniz Ventura, e o jornalista Fernando Gabeira.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
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