POLÍTICA NACIONAL
Debate no Plenário reforça apoio ao Estatuto dos Cães e Gatos
Publicado em
22 de junho de 2026por
Da Redação
Especialistas e representantes da sociedade civil e do governo defenderam nesta segunda-feira (22), em sessão de debates temáticos no Senado, a aprovação do Estatuto dos Cães e Gatos. A proposta visa consolidar direitos, definir deveres e orientar políticas públicas voltadas ao bem-estar de cães e gatos. O debate foi conduzido pelo senador Paulo Paim (PT-RS), requerente da sessão.
O Estatuto dos Cães e Gatos (PL 6.191/2025) teve origem em uma sugestão legislativa apresentada por entidades da sociedade civil ao Senado. A proposta foi acolhida pela Comissão de Direitos Humanos (CDH), transformada em projeto de lei e aprovada pelo colegiado. Além de outras ações, o texto orienta a construção de políticas públicas voltadas ao combate aos maus-tratos e ao abandono. Atualmente, a matéria tramita na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), onde recebeu parecer favorável do senador Fabiano Contarato (PT-ES).
Relator da proposta na CDH, Paulo Paim defendeu a criação de um marco legal capaz de preencher lacunas existentes nas políticas públicas voltadas à proteção animal. Segundo ele, o país ainda carece de legislação específica, dados estatísticos e mecanismos permanentes de financiamento para ações governamentais e da sociedade civil.
Paim também chamou a atenção para a situação de ONGs e protetores independentes, que frequentemente assumem a responsabilidade pelos animais abandonados sem o apoio necessário do poder público.
O senador destacou ainda o impacto econômico da causa animal. Citando pesquisa da consultoria CVA, focada na indústria e comportamento do consumidor, ele informou que famílias com renda média mensal de R$ 8.411 destinam cerca de 8% do orçamento aos animais de estimação. Segundo o levantamento, os gastos médios mensais chegam a R$ 690 por um cão e R$ 570 por gato, tendo a alimentação e os medicamentos entre as principais despesas.
Protetores e voluntários
Estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) informa que cerca de 30 milhões de cães e gatos vivem, atualmente, em situação de rua no Brasil, sendo aproximadamente 20 milhões de cães e 10 milhões de gatos.
Representando a Associação Amigos dos Animais, Fernanda Juliana Becker afirmou que a falta de políticas públicas para a causa animal acaba transferindo para voluntários e organizações a responsabilidade pelo atendimento de cães e gatos em situação de vulnerabilidade. Ela defendeu a aprovação do Estatuto dos Cães e Gatos como forma de garantir proteção legal aos animais e maior apoio aos protetores.
— A proteção animal não pode continuar dependendo exclusivamente da boa vontade de voluntários exaustos e abandonados pelo poder público — disse Fernanda.
Presidente da ONG Arcanimal, Carine Zanotto Vieira destacou ainda o papel das mulheres na proteção animal, afirmando que elas representam cerca de 80% das pessoas que dedicam tempo ao cuidado de cães e gatos. Segundo Carine, o trabalho das protetoras é frequentemente romantizado, enquanto a responsabilidade pela causa continua concentrada em poucas pessoas.
— Chamar uma protetora de guerreira é fácil, difícil é dividir a responsabilidade que recai sobre ela todos os dias.
Impossibilitado de participar presencialmente da sessão, o senador Fabiano Contarato encaminhou pronunciamento se comprometendo com a aprovação da matéria. Para ele, o estatuto “fortalece instrumentos de proteção, aperfeiçoa a responsabilidade daqueles que praticam violência reafirma um princípio fundamental: nenhuma vida deve ser tratada como descartável”.
Saúde integral
Os debatedores ressaltaram a situação dos animais que vivem sem assistência estatal. Segundo Fernanda Becker, milhões de cães e gatos permanecem sem acesso a serviços básicos, como castração, atendimento veterinário e alimentação adequada.
— Enquanto discutimos este tema, existem milhões de animais vivendo sem qualquer escudo social ou legal.
O representante do Conselho Federal de Medicina Veterinária, Leonardo Napoli, também argumentou nesse sentido. Para ele, a saúde dos animais está interligada a saúde humana e ambiental e “não há como falar de uma sem abordar a outra”.
Zoocídio
Voluntários, defensores e pesquisadores alertaram ainda para a violência crescente contra os animais. Para eles, a crueldade é real, sádica, frequente e precisa ser encarada com o rigor máximo da lei.
Carine Zanotto criticou a impunidade em casos de maus-tratos e a falta de mecanismos de fiscalização da atuação de protetores e organizações ligadas à causa animal.
— O barulho existe, mas a ação não (…). Isso é sintoma de um sistema que não fiscaliza nem exige transparência.
Os participantes lembraram como exemplo de crueldade a morte do cão Orelha. Eles classificaram o cachorro como um símbolo de uma tragédia que se repete todas as horas no país.
— Casos que geram indignação enorme, mas que somem no dia seguinte. Sem processo, sem condenação, sem consequência, porque hoje no Brasil não existe uma única lei capaz de manter um agressor de animais preso em regime fechado.
O juiz do Núcleo de Pesquisas em Direito Animal da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Vicente de Paula Ataíde Júnior, afirmou que o Estatuto dos Cães e Gatos representa um marco ao reconhecer os animais como sujeitos de direitos. Segundo ele, será o primeiro estatuto federal voltado especificamente ao direito animal.
— Será o primeiro estatuto federal de direito animal porque ele é expresso em catalogar direitos de cães e gatos, para afirmar os princípios do direito animal.
Ele citou como exemplo desse avanço a tipificação do zoocídio, “algo indispensável no momento atual” porque, segundo ele, a lei de crimes ambientais não trata especificamente sobre cães e gatos, apenas de animais silvestres.
Prioridade no orçamento
Na opinião do conselheiro do Tribunal do Contas do Distrito Federal (TCDF) André Clemente, é possível que a pauta seja priorizada nos orçamentos dos estados, do Distrito Federal e do governo federal como uma política de Estado.
— Investimentos em infraestrutura, orçamento, capacitação de mão de obra, sistema com cadastros que buscam consolidado e integrar dados sobre protetores, cuidadores. Isso é fundamental. Se não conhecermos a nossa necessidade, a nossa demanda, como vamos planejar, como vamos agir?
Controle populacional
No entendimento do advogado e um dos responsáveis pela revisão técnica do projeto em tramitação Rogério Rammê o Brasil vive um estado de omissão sistêmica em relação às políticas de proteção animal. E essa ausência, segundo ele, se revela de forma mais cruel na política de controle populacional de cães e gatos.
— Na maioria dos municípios brasileiros não há diagnóstico e sequer sabemos quantos cães e gatos vivem em situação de rua. Não há politica permanente de castração e de manejo populacional ético. O que existe são programas pontuais, descontínuos, reféns da troca de gestão e na maioria dos municípios não há metas, fiscalização e, logicamente, não há responsabilização.
Fiscalização
O procurador da República Igor Miranda da Silva defendeu que o Estatuto dos Cães e Gatos reconheça expressamente o papel do Ministério Público na fiscalização e na implementação das políticas públicas previstas na proposta. Segundo ele, a medida não cria novas atribuições, mas reforça competências que já decorrem da Constituição.
— O texto poderia prever expressamente a atuação do Ministério Público na fiscalização e na implementação de políticas públicas.
Iniciativas
Representando o Departamento de Proteção, Defesa e Direitos Animais do Ministério do Meio Ambiente, Vanessa Negrini destacou iniciativas do governo federal voltadas ao combate aos maus-tratos, à capacitação de agentes de segurança pública e ao financiamento de programas de castração.
Ela também manifestou apoio à construção do Estatuto dos Cães e Gatos e colocou o órgão à disposição para contribuir com o aperfeiçoamento da proposta. Segundo Vanessa, o desafio é conciliar avanços na proteção animal com medidas que possam ser efetivamente implementadas.
— Precisamos de um estatuto ambicioso na proteção animal, mas que também seja realista na sua implementação e assegure segurança jurídica.
Também participaram da sessão o deputado estadual do Rio Grande do Su Ígor Miranda da Silva; o advogado de direito animal Alexandre Beltrão Braga; o representante da ONG Faço pelos Animais e vereador Cristiano Ferreira Moraes e a especialista em direito animal e advogada do Grupo de Resposta a Animais em Desastres Ana Paula de Vasconcelos. Também estiveram presentes os vereadores Jonas Reis, de Porto Alegre, Marly Coelho, de Viçosa (MG) e a ex-vereadora de Goiânia e dirigente da ONG Recanto Anjos Peludos, Lucíola Oliveira.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
POLÍTICA NACIONAL
Fissura labiopalatina exige intervenção precoce e multidisciplinar, aponta debate
Published
15 minutos agoon
22 de junho de 2026By
Da Redação
Especialistas, pacientes e familiares defenderam nesta segunda-feira (22), em audiência pública da Comissão de Direitos Humanos (CDH), acesso rápido e contínuo ao tratamento multidisciplinar para pessoas com fissura labiopalatina, malformação congênita em que os tecidos do lábio superior ou do céu da boca (palato) não se fundem adequadamente durante o desenvolvimento do feto.
Os participantes do debate destacaram a importância do diagnóstico precoce, da descentralização da rede de atendimento e do acompanhamento especializado ao longo de todo o processo de reabilitação para garantir dignidade aos pacientes e às famílias.
A audiência foi solicitada pela senadora Damares Alves (Republicanos-DF) para discutir a atenção integral às pessoas com essa condição no Brasil, incluindo diagnóstico, tratamento e garantia de direitos. Nesta quarta, dia 24 de junho, é celebrado o Dia Nacional de Conscientização sobre a Fissura Labiopalatina.
Segundo a senadora, o tema exige atenção especial por envolver recém-nascidos, crianças e adolescentes que dependem da atuação coordenada do Estado para acessar cuidados especializados. Damares ressaltou que os pacientes necessitam de acompanhamento multiprofissional, com procedimentos cirúrgicos, ortodontia, psicologia, fonoaudiologia, nutrição e apoio educacional.
— O tema não se encerra numa sala de cirurgia, ele é transversal — declarou.
Prazo para intervenção
Camila Rocha e Silva, diretora-executiva da Smile Train Brasil (organização sem fins lucrativos dedicada à ampliação do acesso ao tratamento de pessoas com fissura labiopalatina), explicou que os primeiros dias após o diagnóstico são decisivos para a qualidade de vida dos pacientes e das famílias.
Ela defendeu o acesso ao atendimento especializado em até 30 dias após a identificação da condição, proposta da campanha 30 Dias Mudam 20 anos. O movimento luta pela criação de regulamentação federal que garanta que bebês com a malformação sejam encaminhados para tratamento especializado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) nesse prazo máximo de um mês. Segundo Camila, o acompanhamento adequado desde o início reduz barreiras físicas, sociais e econômicas que podem comprometer a participação plena dos pacientes na sociedade.
— Quando falamos em garantir o primeiro atendimento especializado em 30 dias, estamos falando de muito mais do que um prazo; estamos falando de garantir a cada criança o direito de crescer com dignidade, saúde e as mesmas oportunidades que qualquer outra criança brasileira — disse.
Representante do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC), o médico Cristiano Tonello reforçou a importância do atendimento precoce. Segundo ele, a intervenção rápida contribui para assegurar condições básicas de alimentação e respiração e favorece o desenvolvimento dos pacientes ao longo do tratamento.
Descentralização
O cirurgião Marconi Delmiro afirmou que as dificuldades enfrentadas pelos pacientes não terminam com a cirurgia. Ao relatar um projeto em que equipes de saúde se deslocavam para diferentes regiões do país para realizar procedimentos, ele avaliou que ações pontuais, embora importantes, não garantem a reabilitação completa dos pacientes.
— O ideal é que menos crianças precisem cruzar o país para que essas famílias sejam atendidas, que elas não precisem largar tudo no meio do caminho. Mas preciso ser honesto com vocês. Isso não é solução: montar missões e ir até determinados locais operar. E depois? Como é que ficam essas crianças, famílias? A gente diminui um pouco a dor naquele momento, mas não muda a realidade — declarou.
Fonoaudióloga e representante do Conselho Federal de Fonoaudiologia, Iracema Santos Andrade Rocha defendeu a descentralização e interiorização do atendimento multidisciplinar. Segundo ela, a distribuição desigual dos serviços especializados dificulta o acesso e a continuidade do tratamento para muitos paciente:
— É importante ter na cidade onde esse paciente mora profissionais da equipe multi (fono, orto, psico, entre outros), profissionais capacitados para dar continuidade ao tratamento e alinhados ao centro especializado, porque não adianta nada ter a lei que determina a atuação no cuidado da fissura labiopalatina e esse paciente não ter as terapias de forma eficaz.
Camila Carloni Gasparro, representante do Ministério da Saúde, informou que a ampliação da rede de serviços especializados está entre os objetivos da pasta. Ela destacou a necessidade de ampliar a oferta de atendimento na Região Norte, que atualmente conta com centros especializados apenas no Pará e no Tocantins.
Legislação
Damares destacou a importância de se avaliar a implementação da Lei 15.133, de 2025, que tornou obrigatória a oferta, pelo SUS, de cirurgia reconstrutiva para fissura labiopalatina. Segundo a senadora, é necessário verificar se a norma atende às necessidades dos pacientes e de suas famílias.
Ao destacar o impacto da condição sobre as famílias, Berenice Oliveira Leite Lacerda, mãe de paciente, defendeu o reconhecimento legal da fissura labiopalatina como deficiência física. Segundo ela, a medida permitiria ampliar o acesso das famílias a benefícios assistenciais, como o Benefício de Prestação Continuada (BPC), especialmente nos casos em que pais ou responsáveis precisam deixar o trabalho para acompanhar o tratamento dos filhos.
Bárbara Micheiline, também mãe de paciente, cobrou a capacitação de profissionais das redes pública e privada de saúde para aprimorar o diagnóstico precoce e a orientação às famílias. Ela também pediu a aprovação do PL 2.811/2021, que torna obrigatório o exame de triagem neonatal para identificar fissuras labiopalatinas em recém-nascidos e prevê o encaminhamento dos casos para tratamento precoce no SUS. O projeto de lei, já aprovado pela Câmara dos Deputados, aguarda análise da CDH.
Também participaram do debate Gerson Wilder de Sousa Melo, presidente da Comissão de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência da OAB/DF; e Ronei Lacerda de Andrade, pai de paciente e representante da OAB.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
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