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Terça-feira, 13 de outubro de 2026

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Por que pessoas ainda procuram a Arca de Noé em uma formação rochosa natural na Turquia

Algumas pessoas acreditam que a formação de Durupınar seja os restos fossilizados da Arca de Noé, mas todos estudos feitos até agora indicam ser proveniente de processos geológicos naturais. Mfikretyilmaz via Wikimedia…

Eric Vanden Eykel, Associate Professor of Religious Studies, Ferrum College — The Conversation Brasilatualizado em 8 min de leitura
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Foto: Mfikretyilmaz via Wikimedia Commons, CC BY
Foto: Mfikretyilmaz via Wikimedia Commons, CC BY

Algumas pessoas acreditam que a formação de Durupınar seja os restos fossilizados da Arca de Noé, mas todos estudos feitos até agora indicam ser proveniente de processos geológicos naturais. Mfikretyilmaz via Wikimedia Commons, CC BYUma equipe de pesquisadores da Universidade Cumhuriyet de Sivas na Turquia está investigando uma alegação de longa data: de que uma formação geológica em forma de barco, localizada no leste do país, conteria os restos da Arca de Noé.

No livro bíblico do Gênesis, Deus decide destruir o mundo com um dilúvio. Seguindo as instruções de Deus, Noé constrói uma arca – uma grande embarcação de madeira – para salvar a si mesmo, sua família e animais de todos os tipos.

A formação em questão, conhecida como Durupınar, vem sendo associada à Arca de Noé há quase 70 anos. Mas essa nova equipe de pesquisa chamou a atenção das redes sociais por meio de uma parceria com uma organização cristã sediada nos Estados Unidos chamada Noah’s Ark Scans. Esse grupo vem promovendo Durupınar como o local de repouso da Arca de Noé desde pelo menos 2021.

Durupınar é uma formação geológica natural composta por material sedimentar rico em óxidos de ferro. Está localizada perto da cidade de Doğubayazıt, a apenas alguns quilômetros da fronteira com o Irã.

Declarações oficiais dos pesquisadores envolvidos no projeto afirmam que as análises laboratoriais ainda estão em andamento. Os pesquisadores, no entanto, descreveram algumas descobertas preliminares como potencialmente consistentes com uma estrutura semelhante a um navio, enquanto afirmações que circulam nas redes sociais têm sido mais categóricas, alegando que as imagens de varredura confirmaram que a formação é de origem humana e “100% não geológica”.

Afirmações de que a formação é de origem humana também apareceram na cobertura do caso pela imprensa britânica e americana.

Como estudioso do cristianismo primitivo, estudo textos bíblicos e sua interpretação. Certas alegações sobre a formação de Durupınar vêm circulando há décadas e oferecem uma oportunidade de examinar como as pessoas leem e interpretam a história bíblica do dilúvio.

Para compreender as alegações atuais, no entanto, é útil perguntar em primeiro lugar como essa formação passou a ser associada à Arca de Noé.

Uma forma de barco no leste da Turquia

A formação de Durupınar leva o nome do capitão do Exército turco İlhan Durupınar, que percebeu a forma semelhante a um barco ao examinar fotografias aéreas da região em 1959. Devido à sua proximidade com um pico conhecido desde a Idade Média como Monte Ararat, que, segundo o relato do dilúvio do Gênesis, é o local onde a Arca de Noé veio a repousar, Durupınar questionou se essa formação poderia ser os restos petrificados da arca, preservados na paisagem ao longo do tempo.

No ano seguinte, Durupınar juntou-se a uma equipe patrocinada pela Fundação de Pesquisa Arqueológica dos Estados Unidos em uma expedição ao local. Liderada por George Vandeman, um evangelista televisivo, e Arthur Brandenberger, um especialista que utilizava fotografias aéreas para medir e mapear a paisagem, a equipe viajou até o local com o objetivo explícito de confirmar se se tratava, de fato, dos restos petrificados da lendária Arca de Noé.

A expedição foi tema de um breve artigo na edição de 5 de setembro de 1960 da revista LIFE. O artigo observou que, embora um integrante da expedição permanecesse cético quanto à possibilidade de a natureza, por si só, ser responsável por uma forma como essa, as pesquisas realizadas acabaram por “não revelar nenhum indício de que o objeto fosse de origem humana”. A expedição, portanto, concluiu que se tratava de uma formação geológica natural. Em outras palavras, não eram os restos petrificados da Arca de Noé bíblica.

Como Durupınar se tornou a Arca de Noé

Após a expedição de 1960, o interesse por Durupınar diminuiu, e o caso foi ignorado por um tempo. O local, porém, voltou a chamar a atenção do público no final da década de 1970, quando Ron Wyatt, um enfermeiro anestesista e arqueólogo amador, inspirado pelo artigo da LIFE, viajou para Durupınar para investigar por conta própria.

Enquanto estava no local, Wyatt realizou uma série de testes e acabou afirmando que a formação era, na verdade, os restos da Arca de Noé. Ele argumentou que o radar e outras varreduras mostravam evidências de paredes, conveses, madeira petrificada, acessórios de metal e outros materiais que se poderia esperar encontrar nas ruínas de um navio de madeira. Wyatt também ficou intrigado com grandes pedras próximas ao local, que, segundo ele, teriam sido penduradas no barco para mantê-lo estável enquanto estava flutuando.

Inicialmente, Wyatt conseguiu convencer outro arqueólogo amador dos EUA, David Fasold, de que suas alegações eram verdadeiras. De fato, em 1988, Fasold publicou um livro no qual argumentava que a formação de Durupınar era a Arca de Noé.

Ilustração da Arca de Noé no Monte Ararat, feita pelo pintor flamenco Simon de Myle.
Sotheby's Paris, 23 de junho de 2011 via Wikimedia Commons

O entusiasmo de Fasold pelo local, no entanto, durou relativamente pouco, e menos de 10 anos após a publicação de seu livro sobre o tema, ele foi coautor de um artigo científico com o geólogo Lorence Collins que refutou suas conclusões anteriores. Após uma avaliação completa das evidências disponíveis, Fasold concluiu que “a suposta Arca perto de [Doğubayazıt] é uma formação rochosa totalmente natural. Não pode ter sido a Arca de Noé, nem mesmo um modelo construído pelo homem”.

Geólogos qualificados tendem a concordar com a avaliação de Fasold e Collins: Durupınar é uma formação geológica natural, e não os restos de um navio de madeira. O geólogo Murat Avcı, por exemplo, identifica a formação em forma de barco como um grande bloco de calcário que desceu a encosta em um deslizamento de terra e foi posteriormente moldado por um fluxo de terra e outros processos geológicos.

Análises geológicas identificaram o material que Wyatt descreveu como madeira petrificada como rocha comum, e os objetos descritos como suportes de ferro como material vulcânico intemperizado. Os padrões que foram interpretados como compartimentos da arca são consistentes com a estrutura natural e as fraturas da formação, enquanto as supostas “pedras de âncora” são, na verdade, compostas de rocha vulcânica local.

Nova pesquisa, mito antigo

Todos os resultados do projeto de pesquisa mais recente são, no momento, ainda preliminares e inconclusivos. As amostras aguardam análise em laboratórios, e comunicados oficiais da universidade afirmam que a avaliação das evidências se estenderá até 2027.

Como estudioso da Bíblia, porém, estou mais interessado em nosso fascínio contínuo pelas histórias do dilúvio.

A maioria dos estudiosos da Bíblia interpreta a história do dilúvio no Gênesis como parte de uma tradição muito mais antiga de mitologia de um dilúvio do antigo Oriente Próximo. Escritores da antiga Mesopotâmia contavam várias versões de uma história na qual os deuses enviam um dilúvio catastrófico, mas avisam um homem, que então constrói uma grande arca para salvar sua família e os animais.

No Épico de Atrahasis, conhecido por manuscritos que datam do segundo milênio a.C., por exemplo, esse sobrevivente é Atrahasis. Outra versão da mesma história também aparece na Epopeia de Gilgamesh, onde o sobrevivente do dilúvio Utnapishtim constrói uma grande embarcação para resistir à tempestade.

O Gênesis não se limita a copiar essas histórias mais antigas; ele as reformula. Em Atrahasis, os humanos barulhentos se tornam um incômodo para os deuses, então os deuses os afogam. O Gênesis, por outro lado, apresenta a violência e a corrupção como o principal problema. O final do Gênesis também segue uma direção diferente. Em vez de impor novos limites à reprodução humana, como faz o épico de Atrahasis, Deus, no Gênesis, abençoa a família de Noé, diz a eles para “serem fecundos e se multiplicarem” e estabelece uma aliança com toda a Humanidade e com todos os seres vivos .

Uma das coisas mais interessantes sobre a história do dilúvio no Gênesis é que o dilúvio, na verdade, não consegue resolver o problema que o causou inicialmente. Antes do dilúvio, a Humanidade já se inclinava para o mal. Após o dilúvio, o problema persiste. Mas a história, em última análise, não trata da eliminação da maldade humana; trata de como a vida continua, apesar das falhas persistentes da Humanidade.

A pesquisa atual em Durupınar, assim como as que a precederam, parte do pressuposto de que, por trás da história bíblica, há evidências tangíveis apenas esperando para serem encontradas. Por quase 70 anos, essa formação geológica em formato de barco manteve essa possibilidade viva.

As antigas histórias sobre o dilúvio e como elas se transformaram ao longo das diferentes culturas podem revelar como as pessoas interpretavam as catástrofes, a violência humana e a possibilidade de recomeçar. Uma forma de barco no leste da Turquia provavelmente não consegue fazer isso.

Eric Vanden Eykel não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

Artigo publicado originalmente na The Conversation Brasil sob licença Creative Commons. O texto não foi alterado.

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