O que os presidenciáveis propõem para o futuro da tecnologia no Brasil?
Estudo do Laboratório Interdisciplinar de Inteligência Artificial para Métodos, Democracia e Sociedade identificou 98 promessas relacionadas a tecnologia, IA, Ciência, educação digital ou soberania tecnológica nas…

Estudo do Laboratório Interdisciplinar de Inteligência Artificial para Métodos, Democracia e Sociedade identificou 98 promessas relacionadas a tecnologia, IA, Ciência, educação digital ou soberania tecnológica nas plataformas de governo dos seis principais candidatos. O que distingue as propostas é a combinação entre o tamanho das agendas, a capacidade de execução, a proteção de direitos digitais e as dependências tecnológicas que o país pretende reduzir. Montagem fotográfica / TCBrasil, CC BYA tecnologia deixou de aparecer nos programas presidenciais apenas como sinônimo de modernização administrativa ou expansão da internet. Uma análise de seis planos de governo apresentados para a eleição de 2026, revelou que referências a Inteligência Artificial, dados, Ciência, conectividade e infraestrutura digital cruzam-se com propostas para saúde, educação, indústria, segurança, serviços públicos e inserção internacional do Brasil.
O ponto de interesse, para quem acompanha a campanha, está menos em contar quantas vezes cada candidato fala de tecnologia e mais em observar quando essas referências se transformam em compromissos que poderão ser cobrados depois da eleição.
Foi com esse objetivo que produzimos no <labiia_lab>, Laboratório Interdisciplinar de Inteligência Artificial para Métodos, Democracia e Sociedade, um estudo que resultou no relatório “Quem tem um plano para o futuro digital do Brasil?”.
A análise reuniu 592 páginas dos programas de Augusto Cury (Avante), Flávio Bolsonaro (PL), Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Renan Santos (Missão), Romeu Zema (NOVO) e Ronaldo Caiado (PSD), registrados na Justiça Eleitoral. Nelas, 563 continham texto extraível, totalizando 168.906 palavras.
Identificamos 98 promessas relacionadas diretamente a tecnologia, IA, Ciência, educação digital ou soberania tecnológica. Cada promessa foi analisada segundo cinco sinais de execução: instrumento, órgão ou ator responsável, prazo ou etapas, financiamento e meta mensurável. A análise também verificou a cobertura de sete áreas temáticas e três condições transversais.
Os resultados mostram por que uma comparação baseada apenas em número de menções seria enganosa. Augusto Cury usa a expressão “inteligência artificial” 56 vezes, seguido por Ronaldo Caiado, com 34, Flávio Bolsonaro, com 21, Lula e Renan Santos, com 11 cada, e Romeu Zema, com quatro. Cury também lidera as menções a “educação”, enquanto Caiado aparece em primeiro lugar em referências a “tecnologia”, “digital”, “dados”, “Ciência” e “conectividade”. Flávio se diferencia pela frequência da palavra “internet” e Renan Santos pelas referências a “terras raras”.
Proporcionalmente, programa de Lula é o que mais fala em inovação
Essas contagens precisam ser lidas com cuidado porque os documentos têm extensões muito diferentes. Os planos de Cury e Caiado têm cerca de 40 mil palavras cada, enquanto os outros quatro ficam próximos de 20 mil. Proporcionalmente ao tamanho, a ordem muda: é Lula quem mais fala em inovação, com 22,4 menções a cada dez mil palavras.
Repetir uma expressão mostra quanto espaço textual uma campanha dedica ao assunto, mas não informa se há uma política formulada, quanto ela custará ou como será executada.
Quando passamos das palavras às ações futuras identificáveis, Caiado reúne 22 promessas tecnológicas, Cury tem 18; Lula oferece 16, Renan cita 15, com Zema são 14 e Flávio mostra 13. A diferença se torna mais clara quando observamos os cinco sinais de execução. Caiado alcança média de 3,05 sinais por promessa, Renan chega a 3,00, Zema a 2,57, Cury a 2,39, Lula a 2,38 e Flávio a 2,08. Entre as 22 promessas de Caiado, 19 apresentam pelo menos três sinais de execução, enquanto Renan alcança esse patamar em 11 de suas 15 propostas. Nos demais programas, a proporção é menor.
Duas ressalvas: a codificação das 98 promessas foi feita por um único codificador, sem teste de concordância entre codificadores, e as 29 páginas sem texto extraível ficaram fora de todas as contagens. Ambas estão declaradas no relatório.
Esse indicador não mede se uma política é desejável, tecnicamente correta ou financeiramente viável. Ele mede quanto o próprio programa permite cobrar depois. Uma promessa que informa instrumento, responsável, prazo, financiamento e meta deixa rastros para jornalistas, oposição, órgãos de controle e sociedade civil acompanharem sua execução. Uma proposta que anuncia apenas uma direção política deixa menos critérios para esse acompanhamento.
Associações da tecnologia a outras políticas públicas são bem diferentes
As diferenças entre os seis candidatos aparecem com mais nitidez quando observamos o tipo de agenda que cada um constrói. Cury conecta tecnologia a formação, saúde, modernização industrial, combate a fraudes e prevenção de incêndios. Seu programa associa IA à reforma curricular, à pós-graduação e à preparação para mudanças no mercado de trabalho, mas várias propostas deixam em aberto custos, distribuição de responsabilidades e etapas de implantação.
Flávio Bolsonaro organiza boa parte de sua agenda em torno de serviços públicos digitais. O “Brasil sem Fila”, a identidade digital, a assistente ClarIA, a integração de prontuários e o uso de IA para organizar agendas de saúde oferecem exemplos fáceis de visualizar. O programa se apoia em infraestruturas que já existem, como Gov.br e a Rede Nacional de Dados em Saúde, mas apresenta menos definição sobre custos de integração, auditoria dos sistemas automatizados, indicadores de qualidade e manutenção de canais não digitais para quem não consegue utilizar esses serviços.
Lula articula tecnologia com soberania digital, política industrial e direitos. Dados, nuvem, data centers, conectividade, modelos de linguagem em português, regulação e Gov.br aparecem dentro de uma concepção de capacidade estatal e produtiva.
O programa também se ancora em políticas já existentes, como a Nova Indústria Brasil, o Plano Mais Produção, o Fust e o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial. Essa continuidade fornece uma base institucional mais definida, mas parte das propostas permanece formulada como direção de governo, sem converter cada frente em uma nova meta, prazo e orçamento para o mandato seguinte.
Renan Santos concentra sua agenda em minerais críticos, terras raras e inteligência artificial aplicada ao agronegócio. O programa apresenta zonas econômicas especiais, contratos de compra futura, parcerias público-privadas, fundos de garantia, fases de implantação e estimativas financeiras. Essa concentração ajuda a explicar sua média elevada de detalhamento, mas também reduz a cobertura de temas como direitos digitais, serviços públicos, educação digital e proteção social diante da automação.
Zema trata tecnologia principalmente pelo ângulo da produtividade, do investimento privado e da avaliação de desempenho. Data centers, biotecnologia, terras raras, digitalização do Estado e pesquisa aplicada aparecem ligados à atividade econômica. Na ciência e no ensino superior, seu programa propõe relacionar financiamento universitário e bolsas a resultados e demanda aplicada, escolha que abre uma discussão própria sobre pesquisa básica, autonomia universitária e áreas cujos resultados não aparecem em indicadores de curto prazo.
Caiado reúne pesquisa, infraestrutura, indústria, conectividade, formação profissional, cibersegurança, governo digital, semicondutores, modelos em português e regulação de IA por risco em um programa que especifica mais instrumentos e critérios de acompanhamento que os demais. O texto também prevê validação, supervisão humana, avaliação de sistemas e auditoria em usos de inteligência artificial. Parte das propostas continua sem orçamento fechado ou calendário nacional detalhado, mas o programa oferece mais referências objetivas para acompanhamento posterior.
Relatório não tem vencedores
A cobertura temática produz outra fotografia. Como mostra o gráfico abaixo, extraído do relatório, Cury e Caiado atendem a nove dos dez itens verificados, Lula chega a oito, Zema a sete e Flávio e Renan a seis. Nenhum dos programas cobre os dez. Os dois primeiros, aliás, falham em pontos diferentes: Cury não pontua em conectividade, Caiado em cronograma. Renan apresenta uma agenda estreita e relativamente detalhada, enquanto Cury cobre mais áreas, mas com menor média de sinais de execução.
O relatório, portanto, não aponta um vencedor único. Cada medida responde a uma pergunta diferente, e as lideranças mudam conforme o critério.
Tecnologia já atravessa quase todas as áreas do Estado. A disputa de 2026 não é apenas sobre usar mais ou menos Inteligência Artificial. É sobre que capacidades o Brasil pretende construir, quais dependências aceita e quais mecanismos de controle acompanharão a digitalização.
O que separa as propostas está na combinação entre extensão da agenda, capacidade de execução, proteção de direitos e escolha das dependências tecnológicas que o país pretende manter ou reduzir. É nesse terreno que os planos oferecem material para comparação e, principalmente, para cobrança durante a campanha e depois dela.
Colaboraram com o relatório apresentado neste artigo: Adriana Lima de Oliveira, Amanda Simões e
Cláucia Faganello
Os autores não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo e não revelaram qualquer vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.
Artigo publicado originalmente na The Conversation Brasil sob licença Creative Commons. O texto não foi alterado.
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