Ecotoxicologia: o estudo dos efeitos da poluição na saúde e no ambiente luta por reconhecimento no Brasil
Anúncio do pesticida DDT nos EUA em 1947: por vários anos, veneno foi vendido e divulgado como produto benéfico à saúde. Dedicados a desvendar os impactos de poluentes como este nos seres humanos e na natureza…

Anúncio do pesticida DDT nos EUA em 1947: por vários anos, veneno foi vendido e divulgado como produto benéfico à saúde. Dedicados a desvendar os impactos de poluentes como este nos seres humanos e na natureza, pesquisadores pedem a incorporação da Ecotoxicologia por agências de fomento. Imagem: Wikimedia, CC BYUma ciência dedicada a explicar como poluentes químicos afetam a saúde humana e dos ecossistemas, a Ecotoxicologia é cada vez mais essencial. Apesar da crescente conscientização global sobre os problemas causados por agrotóxicos, microplásticos e tantos outros contaminantes, a área ainda enfrenta dificuldades para se estabelecer no Brasil. Nossa equipe do Laboratório de Ecotoxicologia Marinha da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) trabalha há 30 anos para fortalecer esse campo. Porém, ainda enfrentamos obstáculos básicos.
Um dos principais entraves é que a Ecotoxicologia ainda não está incluída entre as áreas específicas do conhecimento reconhecidas pelas principais instituições brasileiras de apoio à pesquisa, principalmente o CNPq e a CAPES. Isso é importante, pois possibilita chamadas de financiamento que contemplem seus problemas e métodos, melhores avaliações de projetos e dá visibilidade aos campos científicos.
No entanto, o impacto de um químico no ambiente só pode ser plenamente compreendido quando relacionado aos seus efeitos sobre a vida nativa. A própria história da disciplina mostra que ela surgiu da necessidade de compreender consequências ambientais que outras áreas ainda não conseguiam enxergar, ou estavam prontas para aceitar.
Uma ciência construída com embates
O caso do DDT é um excelente exemplo dessa situação. Os danos ambientais causados pela substância (que era amplamente utilizada no controle de pragas) foram revelados pela bióloga Rachel Carlson em seu livro “Primavera Silenciosa”, de 1962. Na época, a obra enfrentou fortes oposições científicas e políticas.
Matéria sobre o livro Primavera Silenciosa (Silent Spring), da bióloga e escritora Rachel Carson. O jornal destaca os impactos econômicos do livro sobre a indústria de pesticidas.
New York Times, 22 de julho de 1962.
Esse trabalho foi um marco na história da Ecotoxicologia. Difundiu conceitos como bioacumulação e biomagnificação, nos quais uma substância pode se acumular em um organismo e aumentar de concentração à medida que passa entre predadores na cadeia alimentar. Mesmo anos após a substância ter sido banida em diversos países, ela ainda persiste no ambiente, e ainda há relatos de contaminação humana.
Anúncio publicitário da Pennsalt Chemicals Corporation, publicado na revista Time em junho de 1947. O pesticida DDT era promovido como um produto milagroso e seguro para uso agrícola e doméstico, sob o slogan “DDT is good for me-e-e! (‘DDT é bom para mim!’)”.
Fonte: Wikimedia, CC BY
Outro exemplo bem estabelecido cientificamente ocorreu na indústria naval. Tradicionalmente, as tintas utilizadas nos cascos de embarcações continham tributilestanho, conhecido pela sigla TBT, para impedir a fixação de organismos. Nos anos 80, estudos demonstraram que a substância provoca alterações reprodutivas em moluscos marinhos, incluindo o chamado “imposex”, em que as fêmeas desenvolvem características sexuais masculinas.
No Brasil, o problema foi detectado pela primeira vez na Baía de Guanabara, em 1997, pelo nosso grupo. O TBT foi proibido pela Organização Marítima Internacional em 2008, mas ainda persiste no ambiente de vários países. Além disso, a maioria das novas tintas anti-incrustantes que vêm sendo produzidas ainda contém metais pesados altamente tóxicos ao ambiente. Outras possuem defensivos agrícolas, geralmente combinando biocidas na composição.
Importância de indicadores vivos
A partir da linha de pesquisa do TBT, nosso laboratório contribuiu para introduzir e consolidar no país o uso de organismos vivos como ferramenta para avaliar a qualidade ambiental (método de bioindicação). Eles são usados para mapear detalhadamente as áreas mais críticas. Essa forma requer um custo muito menor do que se fossem analisadas quimicamente em todas as estações de monitoramento.
Em paralelo, desenvolvemos técnicas não-destrutivas para bioindicadores e bioensaios, que permitem obter informações sem sacrificar a vida dos organismos estudados. Atualmente, buscamos aprimorar esses métodos para avaliar, de forma não letal, o desenvolvimento embrionário de ouriços-do-mar, um trabalho em desenvolvimento.
Nem sempre seus efeitos são simples de detectar, pois além dos impactos agudos (de morte ou dano imediato), existem consequências crônicas que se manifestam ao longo do tempo. O trabalho de identificar comprometimentos na locomoção, respiração ou reprodução dos organismos é muito maior e mais demorado.
Além de afetar indivíduos, a contaminação também pode alterar a composição das comunidades. A distribuição das populações de organismos nos diferentes ecossistemas é regulada pelos parâmetros químicos que determinam as condições de sobrevivência para cada espécie. Muitas vezes é a resistência aos contaminantes que irá definir quem sobrevive ou não em cada comunidade exposta. E essa é uma seleção artificial, ou artificialmente mediada pela poluição. É muito diferente da seleção natural, que prevalece nas comunidades menos expostas às ações humanas.
A situação é ainda mais complexa porque as substâncias interagem entre si, no chamado “Efeito coquetel”. Isso pode resultar em efeitos sinérgicos muito maiores do que o que fariam de forma isolada. E, na grande maioria dos casos, a situação isolada não existe no meio ambiente.
Uma questão de política científica e social
Para que a Ecotoxicologia possa contribuir para mudar esse quadro, é preciso ter condições de produzir conhecimento. No entanto, mesmo 64 anos após o livro de Rachel Carson, a área ainda não tem o destaque necessário na ciência nacional. Nas agências financiadoras o termo segue “invisível” – e todos perdem com isso.
Para que a Ecotoxicologia seja incluída entre as áreas do conhecimento das agências, é preciso que seja criado um Comitê de Assessoramento Específico nesse campo pela CAPES. Essa situação se dá apesar de existirem diversos grupos de pesquisadores consolidados na área e mobilizados por esse avanço.
Um exemplo é o INCT TerrEcotox, focado em pesquisas sobre agrotóxicos e ecotoxicologia terrestre e criado em 2023 na Universidade Federal do Tocantins (UFT). Também há um Grupo de Trabalho do Sudeste da Sociedade Brasileira de Ecotoxicologia (Ecotox Brasil). Atualmente, o grupo busca criar um Programa de Pós-Graduação multi-institucional na área.
Contudo, a legislação se encontra em boa parte defasada. É urgente garantir que o país tenha capacidade científica para identificar, acompanhar e prevenir os efeitos de substâncias que chegam ao ambiente, afetando os organismos e a população. Além disso, esses conceitos precisam chegar à educação básica e à sociedade. Afinal, a poluição está ligada tanto à produção quanto ao consumo. Ela está em toda parte, do cafezinho da manhã aos resíduos que descartamos de maneira inadequada.
Nosso grupo têm trabalhado nessa direção por meio do projeto Ecotoxicologia na Extensão (veja em @martoxlab.uerj), que leva o tema a públicos que vão da educação infantil ao ensino superior. Também produzimos textos de divulgação científica voltados para crianças. Mas é preciso multiplicar essas oportunidades de circulação do conhecimento.
Em 2028, em Búzios, no Rio de Janeiro, teremos a 19ª edição do ECOTOX, o Congresso Nacional de Ecotoxicologia. Organizado por pesquisadores de referência, o evento pode ajudar a aproximar pesquisadores, estudantes, professores, formuladores de políticas públicas e sociedade. Para nós, é mais uma oportunidade de ampliar a circulação desse conhecimento. Os desafios são complexos, mas acreditamos que o fortalecimento da Ecotoxicologia depende da nossa insistência. Compreender como a poluição afeta a vida é a nossa forma de proteger o ambiente, as pessoas e o nosso futuro comum.
A divulgação deste artigo contou com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Nível Superior (Capes).
Marcos Antônio dos Santos Fernandez recebeu financiamentos ao longo dos anos por Faperj, CNPq, Finep e bolsa de pesquisador pelo Programa Prociência da UERJ.
Helena Souza Foti recebe financiamento pelo Departamento de Inovação da UERJ (InovUerj).
Artigo publicado originalmente na The Conversation Brasil sob licença Creative Commons. O texto não foi alterado.



