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Sexta-feira, 6 de novembro de 2026

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De sucos verdes a suplementos de células-tronco, dicas nas redes sociais para “fortalecer o sistema imune” podem dar errado

Essa bebida está fortalecendo seu sistema imune ou o lucro das empresas e seus promotores? Pesquisa revelou que mais de 96% do conteúdo sobre fortalecimento da imunidade no Instagram é de criadores que vendem ou…

Alessandro Marcon, Senior Research Associate at the Health Law Institute, University of Alberta — The Conversation Brasil6 min de leitura
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Foto: (Unsplash)
Foto: (Unsplash)

Essa bebida está fortalecendo seu sistema imune ou o lucro das empresas e seus promotores? Pesquisa revelou que mais de 96% do conteúdo sobre fortalecimento da imunidade no Instagram é de criadores que vendem ou anunciam produtos ou serviços. (Unsplash)Todos nós queremos um sistema imune que funcione bem para nos ajudar a combater bactérias e vírus invasores e nos recuperarmos mais rapidamente de doenças. Mas recomendações populares sobre como “fortalecer o sistema imune” podem ser mais um obstáculo do que uma ajuda.

Promover o fortalecimento do sistema imune é uma tendência na internet. Criadores de conteúdo compartilham receitas para fortalecer o sistema imune — desde bebidas até sopas até tijelas de poke e pães de abóbora. Livros sobre nutrição falam de “imunidade superpotente”, enquanto clínicas naturopáticas compartilham “dicas” para fortalecer o sistema imune

A expressão “fortalecer” tornou-se tão comum que aparece com frequência em conteúdos sobre saúde de instituições acadêmicas conceituadas.

A pandemia da COVID-19 — mais do que nunca na memória recente — fez com que o público refletisse profundamente sobre a imunidade. Como pesquisadores interdisciplinares de saúde pública que estudam as forças influentes que moldam as percepções do público, o aumento do discurso sobre o reforço imune durante esse período chamou nossa atenção. Pesquisamos esse conceito em alta nos resultados de busca do Google e em redes sociais como o Instagram.

Constatamos que isso é problemático de duas maneiras: em primeiro lugar, o conteúdo frequentemente apresenta imprecisões científicas sobre o funcionamento do sistema imune. Em segundo lugar, dá destaque a empresas que promovem produtos ou serviços ineficazes. Em um momento em que a confiança em intervenções baseadas em evidências, como vacinas, está abalada, isso pode levar a resultados negativos para nossa saúde.

Equilíbrio, sem exageros

Nem todo conteúdo sobre o fortalecimento da imunidade é impreciso ou prejudicial. Informações provenientes de pesquisas ou de organizações médicas geralmente se concentram na alimentação saudável, prática de exercícios, sono adequado e na prevenção dos malefícios do tabaco e do álcool. A ideia de “potencilizar” ou “aumentar” a imunidade, no entanto, continua sendo fundamentalmente equivocada. O sistema imune precisa ser mantido, não potenciado.

Isso porque o sistema imune de cada pessoa é complexo, composto por células, tecidos, órgãos e proteínas. Esse sistema atua de forma inata e não específica para manter afastados germes invasores nocivos, utilizando, por exemplo, a pele e as membranas mucosas como barreira protetora. E ele também atua de forma adaptativa, mobilizando uma resposta direcionada e específica contra invasores nocivos.

A resposta imune primária do corpo.
(Wikimedia Commons/Sciencia58), CC BY-SA

O sistema imune adaptativo utiliza células B que produzem anticorpos — proteínas especiais que se ligam aos germes invasores e os marcam para destruição ou neutralizam seus efeitos. Existem também células T, que atuam como destruidoras, caçando e matando células que foram infectadas por germes.

Surpreendentemente, o processo adaptativo do sistema imune cria células de memória dos patógenos contra os quais luta. Quando o mesmo invasor volta a entrar no corpo, ele pode ser rapidamente reconhecido e combatido de forma mais eficaz. Um sistema imune que funciona bem também diferencia corretamente entre as células do próprio organismo e as células invasoras.

Um sistema imune com desempenho insuficiente aumenta a possibilidade e a gravidade de infecções. Mas um sistema imune hiperativo pode levar a uma série de doenças autoimunes, como a artrite reumatoide e a esclerose múltipla. Manter o sistema imune, portanto, envolve equilíbrio — e não sobrecarregar suas funções e capacidades.

Empresas aumentam seus lucros

Aqueles que promovem o conceito de “fortalecimento imune” muitas vezes estão simplesmente tentando obter lucro. A própria ideia de “fortalecimento” pode criar uma sensação de carência — de que a saúde de alguém poderia (sempre) estar melhor. Isso enquadra o estado de saúde como um déficit que exige que as pessoas busquem continuamente esforços de restauração ou otimização — uma estratégia de marketing de saúde e bem-estar comumente utilizada.

O primeiro passo é estabelecer uma lacuna, acompanhada de ansiedade ou medo. O segundo passo é oferecer ações que possam ser adquiridas para preencher essa lacuna.

Nossa pesquisa no Instagram durante a pandemia, por exemplo, constatou que mais de 96% do conteúdo sobre fortalecimento imune que analisamos provinha de criadores que vendiam ou anunciavam produtos ou serviços. Identificamos 62 empresas diferentes marcadas em uma amostra de 28 publicações.

Também refletimos sobre como a própria hashtag das redes sociais #immunebooster funcionava como um produto retórico usado para “gerar atividade na economia da atenção online”.

Outras empresas podem promover produtos ou serviços que supostamente fortalecem o sistema imune com alegações nesse sentido, como hidroterapia, infusões intravenosas, limpezas e desintoxicações. No passado, empresas de cereais também comercializaram seus produtos como “auxiliares” da imunidade. Não há evidências sólidas de que qualquer uma dessas atividades traga benefícios à função imune.

Suplementos à base de células-tronco

Suplementos alimentares na forma de vitaminas, minerais ou ervas também oferecem benefícios limitados para quem não apresenta deficiências diagnosticadas.

Conforme observado em um artigo sobre fortalecimento imune publicado por uma rede farmacêutica canadense, “até o momento, nenhum medicamento, produto ou remédio natural foi oficialmente aprovado pelo Ministério da Saúde do Canadá para fortalecer o sistema imune”. Empresas, no entanto, comercializam produtos como fortalecedores explícitos ou, de maneira geral, como produtos que oferecem “benefícios ao sistema imune”.

Uma pesquisa recente de nossa equipe, por exemplo, avaliou a comercialização de suplementos de “células-tronco” no marketplace de comércio eletrônico da Amazon. Descobrimos que mais de 40% dos produtos alegavam benefícios relacionados à imunidade.

Os suplementos são hoje um grande negócio, com uma mercado avaliado na casa das centenas de bilhões de dólares. Não é surpreendente encontrar uma abordagem de marketing ampla e abrangente para produtos como os suplementos de “células-tronco”, que não apresentam evidências claras de eficácia para nenhuma condição de saúde

Confiança na medicina

A comercialização da imunidade é uma preocupação para todos nós. Espaços de saúde comercializados podem prejudicar a confiança nos sistemas de saúde e gerar confusão sobre em quem e no que confiamos.

Se nossas percepções forem moldadas por empresas e influenciadores, isso pode influenciar negativamente atividades essenciais de saúde baseadas em evidências, como a vacinação. A disseminação desenfreada de desinformação sobre vacinas durante a pandemia desestimulou a adesão à vacinação e contribuiu para promover noções incorretas sobre imunidade pessoal.

A relutância em relação à vacina é altamente complexa, com múltiplos fatores em jogo. A política e a polarização são, cada vez mais, forças influentes. O discurso impreciso sobre imunidade apenas obscurece ainda mais o panorama informativo e, por sua vez, a tomada de decisão sobre a vacinação.

O marketing de saúde e bem-estar é astuto e sedutor, cuidadosamente elaborado para despertar nosso interesse e oferecer soluções. No ambiente midiático atual, todos precisamos ser cautelosos e críticos em relação às empresas que comercializam produtos e serviços voltados para nossa saúde e bem-estar. Isso é importante ao avaliar a preparação para qualquer pandemia futura e como nossos sistemas de saúde podem construir e manter a confiança do público.

Uma compreensão precisa da imunidade nos ajuda a manter um sistema imune que funcione bem, e uma sociedade que também funcione bem.

Alessandro Marcon é afiliado ao Bridge Research Consortium (BRC).

Jia Hu trabalha no Centro de Controle de Doenças da Colúmbia Britânica, onde sua atuação se concentra em imunizações e doenças evitáveis por vacinação.

Artigo publicado originalmente na The Conversation Brasil sob licença Creative Commons. O texto não foi alterado.

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