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Segunda-feira, 26 de outubro de 2026

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Da colônia francesa às eleições de 2026: o risco de transformar a religião em disputa por poder

No século XVI, católicos e protestantes se enfrentaram na Baía de Guanabara. A breve colônia francesa ajuda a compreender como crenças e interesses políticos podem alimentar divisões sociais. Ilustração de Louis…

Maria Berbara, Professora de História da Arte, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) — The Conversation Brasilatualizado em 7 min de leitura
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Ilustração de Louis Lebreton (1848-1850)
Ilustração de Louis Lebreton (1848-1850)

No século XVI, católicos e protestantes se enfrentaram na Baía de Guanabara. A breve colônia francesa ajuda a compreender como crenças e interesses políticos podem alimentar divisões sociais. Ilustração de Louis Lebreton (1848-1850)As eleições presidenciais de 2026 são marcadas por uma intensa polarização em torno de temas relacionados a valores morais, entre eles a religião. Como professora de História da Arte da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisadora no campo da interação entre arte, política e religião, preocupam-me especialmente as disputas políticas que manipulam valores e sensibilidades religiosas. Um exemplo recente é a polêmica em torno da figura de Nossa Senhora Aparecida.

Menções sobre uma possível intenção de retirar da santa o título de padroeira do Brasil alimentaram discussões nas redes sociais, acusações entre adversários e disputas judiciais sobre liberdade de expressão. A polêmica também resultou em uma série de denúncias de vandalismos contra imagens sacras em diferentes partes do país. A repercussão mostrou como símbolos religiosos podem mobilizar politicamente a sociedade civil. Mas esse é um movimento que, como nos ensina a história, é extremamente perigoso e está na origem de guerras e conflitos sangrentos.

O Brasil como cenário de disputas históricas

Entre estes, pensemos na história da colonização francesa no Brasil no século XVI, sobre a qual venho pesquisando há alguns anos.

Ilustração de Louis Lebreton (1848-1850).

Ilha de Villegaignon, com a Escola Naval, nos dias atuais. Imagem: Wikipédia., CC BY

Quem passeia pelo Rio de Janeiro e avista a Baía de Guanabara talvez não imagine que uma pequena ilha, atualmente sede da Escola Naval, ao lado do aeroporto Santos Dumont, já abrigou a França Antártica. O nome, criado pelos colonizadores franceses, não tinha relação com o continente gelado, que só seria explorado séculos depois, mas fazia referência ao hemisfério Sul.

No livro “França Antártica: Ensaios interdisciplinares” (Unicamp, 2020), que co-editei junto a colaboradores de diversas áreas, buscamos aprofundar-nos sobre esse breve episódio da história, que durou apenas 12 anos. A ocupação começou em 1555 e terminou em 1567, com a expulsão dos últimos franceses pelos portugueses. O território era reivindicado por Portugal com base no Tratado de Tordesilhas, firmado em 1494 e ratificado pelo papa Júlio II (1443-1513).

Mas por que os franceses decidiram lançar-se a uma empresa colonial tão ousada, desafiando o tratado de Tordesilhas? Desde o início do século XVI, navegadores particulares franceses, ligados ao comércio, já vinham para explorar a extração do pau-brasil, a maior commodity da região naquele período. Além do interesse comercial, porém, também animava os franceses uma forte motivação ideológica, religiosa e política.

A Europa vivia a expansão da Reforma Protestante, movimento iniciado por Lutero (1483-1546), que fragmentou o cristianismo ocidental e deu origem a diferentes denominações protestantes. Segundo documentos históricos, a França Antártica foi concebida, inicialmente, como um possível refúgio para franceses de distintas denominações cristãs. O almirante responsável pela expedição, Nicolas Durand de Villegagnon (1510-1571), era católico, mas recorreu ao líder protestante João Calvino (1509-1564) para obter apoio e recebeu colonos calvinistas. A expectativa de convivência pacífica entre diferentes correntes cristãs, porém, não prosperou.

Uma ilha dividida pela religião

Livro de Jean de Léry, Genebra, edição de 1586 e publicado pela primeira vez em 1578.

Fontes literárias revelam que conflitos de natureza religiosa foram intensos na ilha. Por exemplo, o então jovem Jean de Léry (1534-1611) – que depois se tornou um pastor calvinista – escreveu, em seu livro sobre sua permanência na França Antártica, que Villegagnon era uma figura tirânica e extremamente autoritária. Segundo sua narrativa, dentre as diversas violências cometidas, o almirante teria condenado à morte por afogamento três franceses que discordavam de posições religiosas católicas.

Assim, antes mesmo de ser derrotado pela resistência portuguesa, o projeto colonial francês já estava enfraquecido por divisões internas. Hoje, esse episódio ajuda os historiadores a compreender as divisões que marcaram a Europa nas décadas seguintes, durante as chamadas guerras de religião. Alguns dos personagens que passaram por aqui retornaram à Europa e participaram diretamente de confrontos sangrentos.

Uma das principais controvérsias dizia respeito à Eucaristia, celebração cristã em que pão e vinho representam o corpo e o sangue de Cristo. Os calvinistas rejeitavam essa interpretação e contestavam a autoridade sacerdotal associada ao sacramento. A divergência também colocava em questão a estrutura de autoridade política dos sacerdotes e o papel da Igreja na mediação da fé.

Outro ponto de desacordo comum entre católicos e protestantes, que encontra mais paralelos no debate atual, era a veneração de Maria e dos santos. Na tradição católica, Nossa Senhora ocupa um lugar central de devoção. Algumas correntes protestantes, porém, enfatizaram a singularidade da mediação de Cristo, criticando fortemente a invocação dos santos e a veneração de imagens sacras, que consideravam formas de idolatria incompatíveis com sua interpretação das Escrituras.

Como apontou a historiadora norte-americana Lee Palmer Wandel, essas discussões não ficavam restritas a intelectuais, mosteiros e universidades. Há registros de brigas de rua, discussões familiares, altercações entre camponeses e marinheiros. A questão provocava fraturas em todos os níveis da sociedade, fraturas essas que extrapolaram o registro oral e chegaram a agressões e violências físicas de maior intensidade.

Durante as chamadas Guerras de Religião na França, que se estenderam de 1562 a 1598, estima-se que entre 2 e 4 milhões de pessoas tenham morrido de forma violenta. E a França Antártica funcionou como um microcosmo, uma pequena antecipação do horror que se seguiria naquele que foi um dos séculos mais violentos da história.

A fé como instrumento de poder

Exemplo de duas imagens que foram editadas para reforçar as atrocidades cometidas nas guerras religiosas. Panfleto intitulado Teatro das Crueldades dos Hereges do Nosso Tempo, escrito pelo autor católico inglês Richard Verstegen, na Antuérpia em 1588.

O nome “guerras de religião”, adotado por parte da historiografia, pode dar a impressão de que esses conflitos se explicam apenas pela fé. No entanto, a religião estava fortemente associada a disputas territoriais, dinásticas e sociais, além de interesses econômicos e coloniais. A imprensa, que chegou à Europa em meados do século XV, contribuiu para difundir o terror. Relatos e gravuras denunciavam atrocidades cometidas por católicos ou protestantes, conforme a perspectiva de quem os publicava. Essas imagens também alimentavam a hostilidade entre grupos que até então dividiam as mesmas aldeias, igrejas ou terras.

Ao observar as controvérsias que ressurgem hoje, considero importante recuperar essa história. Não estou dizendo que estamos prestes a repetir as guerras religiosas do século XVI, mas é preciso reconhecer como as divergências de fé podem ser usadas para disputar poder político e que os resultados dessas disputas carregam consigo, com frequência, enorme violência. As novas tecnologias aceleram a circulação de informações enganosas e de representações que desumanizam adversários. E, como já alertava o filósofo francês Michel de Montaigne (1533-1592), a religião pode servir de pretexto para que se cometam atos de extrema crueldade contra o outro – esse outro que, muitas vezes, é construído a partir da manipulação da fé e da espiritualidade.

Saque da Antue rpia.
Saque da Antuérpia. Autor anônimo, 1576 ca. (Biblioteca universitária de Salzburg). O saque é também conhecido como

Em tempos de acirramento político, é importante identificar quem instrumentaliza a religião em benefício próprio, quem promove a intolerância (de forma velada ou explícita) e quem procura confundir convicções religiosas com projetos políticos. Ao afirmar, em um vídeo publicado nas redes sociais, que “o Brasil será de Jesus”, Flávio Bolsonaro me parece um exemplo extremamente preocupante. A história ensina, e muito bem, os perigos do messianismo.

Mutadis mutandis, as novas tecnologias levam-nos, assim como a imprensa o fez no século XVI, a formas de transmissão de conhecimento que ainda não conhecemos e nem podemos mensurar totalmente. A tolerância religiosa e o estado laico, tão duramente conquistados e por quem tantas e tantos deram a vida no passado, correm imenso perigo. Para poder devolver ao planeta a paz e o equilíbrio ecológico que tão desesperadamente necessitamos, é imperativo garantir as liberdades religiosas e combater, a todo custo, a instrumentalização da religião como arma de guerra.

A divulgação deste artigo contou com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Nível Superior (Capes).

Maria Berbara é bolsista de produtividade do CNPq e procientista da UERJ.

Artigo publicado originalmente na The Conversation Brasil sob licença Creative Commons. O texto não foi alterado.

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