Caso Master: mensagens revelam contato direto entre Vorcaro e direção do Metrópoles
Registros apontam pedidos de alterações em textos sobre o Banco Master e assuntos ligados ao setor financeiro; portal afirma que consultar fontes faz parte de sua prática editorial

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Redação
Por: Redação
15/10/2026 às 18h17
Mensagens obtidas pela PF indicam que Vorcaro revisava reportagens do Metrópoles antes da publicação
Mensagens de WhatsApp e documentos extraídos pela Polícia Federal (PF) do celular do empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, indicam que reportagens do portal Metrópoles eram encaminhadas a ele antes da publicação. Segundo os registros descritos na investigação, Vorcaro sugeria mudanças, pedia a retirada de informações e opinava sobre a abordagem de matérias relacionadas ao banco e ao mercado financeiro.
A documentação também aponta que ao menos 14 reportagens teriam sido compartilhadas previamente com o empresário. Em pelo menos 11 casos, os textos teriam passado por alterações após suas manifestações. As conversas ainda registram matérias produzidas a pedido direto de Vorcaro.
A relação ganhou relevância diante de um contrato publicitário de R$ 20 milhões firmado em 2024 entre o Banco Master e o Metrópoles. A coincidência entre o acordo comercial e as conversas sobre o conteúdo jornalístico levantou questionamentos sobre a independência editorial do veículo.
Contrato milionário e mensagens internas
De acordo com os registros mencionados, os contatos entre Vorcaro e Lilian Tahan, CEO do grupo Metrópoles, se intensificaram em maio de 2024. No mês seguinte, o Banco Master teria realizado um pagamento de R$ 1 milhão. Em julho, houve tratativas envolvendo outros R$ 900 mil para projetos relacionados à educação financeira e a empresas vinculadas ao conglomerado, entre elas a seguradora Kovr e o banco digital Will.
Em uma das conversas, a assessora Ana Matos teria comentado com Vorcaro que o portal estava caro. O empresário respondeu: “Coisa mais importante da nossa vida é esse Metrópoles”.
Em outra mensagem, ele informou à equipe que havia autorizado o acordo com Lilian Tahan. A liquidação dos R$ 20 milhões teria ocorrido em parcelas de R$ 5 milhões ao longo de 2025, conforme o relato dos registros.
A existência do contrato publicitário, por si só, não comprova uma relação entre os pagamentos e as decisões editoriais. O ponto central das mensagens é a possível participação do empresário na revisão de conteúdos jornalísticos.
Pedidos de retirada e alteração de informações
Em 2 de abril de 2025, Vorcaro contestou uma informação publicada pelo Metrópoles sobre uma suposta proposta de compra de ativos do Banco Master por R$ 1. “Proposta de 1 real nunca existiu!”, escreveu. Lilian Tahan respondeu: “Tiramos”.
Naquele período, estava em discussão uma operação pela qual o Banco de Brasília (BRB), controlado pelo governo do Distrito Federal, pretendia adquirir participação no Master. A transação enfrentava questionamentos e dependia da análise das autoridades competentes.
Em 9 de abril, segundo as mensagens, a direção do portal informou a Vorcaro que havia recebido um documento sigiloso e discutiu o envio de uma cópia física ao empresário.
No dia seguinte, a CEO apresentou a ideia de uma reportagem comparando os balanços de bancos e perguntou se a abordagem ajudaria ou prejudicaria. Vorcaro respondeu que gostaria de examinar os dados antes da publicação. A solicitação foi aceita, e o texto foi publicado após a consulta.
Em maio, diante de uma minuta sobre a venda de ativos do Master ao BTG Pactual, o empresário pediu a retirada de uma referência à Hapvida. A solicitação também teria sido atendida.
Cobertura sobre o Banco Central
As mensagens descritas na investigação indicam que as intervenções também alcançaram reportagens sobre integrantes do Banco Central (BC) e a operação envolvendo o BRB.
Em agosto de 2025, a direção do Metrópoles teria encaminhado a Vorcaro uma entrevista com o ex-presidente do BC Roberto Campos Neto. Ao comentar o material, o empresário sugeriu reduzir as referências ao diretor Renato Gomes e reservar parte das informações para uma reportagem específica sobre ele.
Dias depois, ao receber o rascunho de um perfil sobre Gomes, Vorcaro teria pedido a retirada de um trecho relacionado à situação financeira do Master e sugerido a inclusão de informações sobre supostas divergências internas no Banco Central e possíveis perspectivas profissionais do diretor após o mandato.
Segundo o relato das conversas, as sugestões foram incorporadas ao texto. Em outra ocasião, o empresário pediu a retirada da frase final de uma reportagem sobre uma proposta que permitiria ao Congresso atuar na demissão de diretores do BC.
O Banco Central acabou vetando a operação de aquisição do Master pelo BRB. Posteriormente, o Banco Master entrou em liquidação extrajudicial. A cronologia dos acontecimentos, entretanto, não demonstra, por si só, que as intervenções editoriais tenham influenciado as decisões da autoridade monetária.
Pedido para conter críticas de adversário político
A interlocução também teria alcançado a cobertura política do Distrito Federal.
Em agosto de 2025, Vorcaro demonstrou incômodo com manifestações de Ricardo Cappelli, então crítico da operação envolvendo o Master e o BRB. Em uma mensagem atribuída ao empresário, ele perguntou se seria possível conter a exposição do adversário naquela semana: “Esse Cappelli, você não consegue dar uma freada essa semana? Depois ele volta!”.
A resposta atribuída à direção do portal foi: “Deixa comigo”.
O episódio acrescenta uma dimensão política às conversas, pois sugere que o empresário não se limitava a discutir informações financeiras, mas também manifestava interesse na maneira como determinadas figuras públicas apareciam no noticiário.
Últimas mensagens antes da prisão
Segundo os registros relatados, a troca de mensagens continuou até 17 de novembro de 2025, data em que Vorcaro foi preso pela Polícia Federal. Na ocasião, a direção do Metrópoles teria encaminhado minutas de reportagens sobre a venda do Master à empresa Fictor antes de publicá-las.
Após as alterações solicitadas pelo empresário, Lilian Tahan teria informado que o material estava no ar e encerrado a mensagem com a expressão “Publicada hahahaha”.
O que diz o Metrópoles
Questionada sobre o envio antecipado de reportagens a Vorcaro, Lilian Tahan afirmou que consultar fontes para verificar se uma matéria corresponde ao contexto apresentado é uma prática adotada por ela com representantes dos setores empresarial, político e jurídico.
A executiva também negou que o contrato publicitário de R$ 20 milhões tivesse relação com a cobertura editorial. Como argumento, mencionou a publicação de reportagens sobre dificuldades e questões envolvendo empresas ligadas ao empresário, entre elas o Banco Master, a Ambipar, a Fictor e a Oncoclínicas.
Sobre a cobertura de Renato Gomes, Tahan afirmou que o diretor do Banco Central se tornou relevante para o noticiário por sua posição contrária à transação com o BRB. Em relação a Ricardo Cappelli, disse que Luiz Estevão, fundador do Metrópoles, também criticava a aquisição e havia fornecido ao político análises técnicas sobre os balanços do banco estatal.
As mensagens atribuídas a Vorcaro e à direção do portal colocam em discussão os limites entre a checagem de informações com fontes e a interferência na produção jornalística. A avaliação definitiva sobre eventuais irregularidades depende da análise integral dos documentos, do contexto das conversas e das demais evidências disponíveis.



