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Terça-feira, 29 de setembro de 2026

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Além da balança: cuidados com a saúde após o emagrecimento

Estudos mostram que os efeitos do emagrecimento rápido vão muito além dos quilos perdidos e levantam perguntas sobre a saúde de músculos, ossos, qualidade de vida e envelhecimento Imagem gerada por IA/ Chat GPT, CC…

Paulo Roberto Falcão Leal, Médico cirurgião do Serviço de Atendimento Integral ao Portador de Obesidade (SAI-Ob) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) e professor do departamento de Cirurgia Geral, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) — The Conversation Brasil8 min de leitura
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Imagem gerada por IA/ Chat GPT
Imagem gerada por IA/ Chat GPT

Estudos mostram que os efeitos do emagrecimento rápido vão muito além dos quilos perdidos e levantam perguntas sobre a saúde de músculos, ossos, qualidade de vida e envelhecimento Imagem gerada por IA/ Chat GPT, CC BYPor muito tempo, o sucesso do tratamento da obesidade foi medido principalmente pela perda de peso alcançada. Quanto maior a redução do peso corporal, melhor era considerada a resposta ao tratamento. Hoje sabemos que isso representa apenas uma parte dos benefícios esperados.

Mesmo sem passar por nenhuma grande intervenção, o corpo humano não é estático. À medida que envelhecemos, sofremos perdas naturais significativas. Massa muscular, força, qualidade óssea e capacidade funcional são importantes para a saúde e a manutenção da autonomia ao longo da vida.

Por isso, é fundamental avaliar os resultados da perda de peso de forma integrada e em longo prazo. Afinal, o que acontece com o organismo anos depois? Nossos estudos, no Serviço de Atendimento Integral ao Portador de Obesidade (SAI-Ob), do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE), indicam que a resposta é bem mais complexa do que a balança consegue revelar.

Atenção à saúde muscular

Uma das preocupações é que a própria redução de gordura corporal pode levar também à perda muscular. Pessoas com obesidade têm mais massa muscular total do que aquelas com peso normal, embora a infiltração de gordura nas fibras musculares possa comprometer sua funcionalidade. Quando há um emagrecimento rápido e expressivo, cerca de 30% do que é perdido corresponde a massa magra. Mas qual o efeito disso sobre a qualidade do músculo?

Em um estudo nosso, publicado no periódico científico Obesity Surgery, avaliamos 39 pacientes entre dois e cinco anos após a cirurgia bariátrica e metabólica. O procedimento, bypass gástrico em Y de Roux, é reconhecido por promover perda de peso e melhora da saúde metabólica. Os casos foram comparados com 21 indivíduos não submetidos à cirurgia, semelhantes em idade, sexo e IMC.

Vimos que, de fato, existe uma associação entre maior perda de peso alcançada e menor quantidade de massa e força muscular. No entanto, isso não se refletiu em pior capacidade funcional. Não encontramos diferenças entre os grupos nas avaliações da massa muscular, força de preensão manual e no desempenho funcional. Todos estavam dentro dos parâmetros de normalidade esperados para a idade e sexo.

Ao mesmo tempo, o grupo submetido à cirurgia tinha menor quantidade de gordura abdominal e um perfil cardiometabólico mais favorável. Tinham valores menores de pressão arterial e melhor perfil glicêmico (glicemia de jejum e hemoglobina glicada) e lipídico (colesterol total, LDL e triglicerídeos). Não basta avaliar apenas se houve perda de peso. É fundamental investigar também a função muscular.

Outro resultado também chamou a nossa atenção. Os pacientes operados tiveram piores resultados em diferentes indicadores de qualidade de vida. Bons resultados clínicos após a cirurgia não significam necessariamente que todas as dimensões da vida tenham melhorado na mesma proporção. Aspectos psicológicos, sociais, comportamentais e relacionados à própria percepção de saúde também precisam fazer parte do acompanhamento.

Saúde dos ossos

Os ossos também precisam se adaptar a uma grande redução do peso corporal. Após a cirurgia, mudanças na absorção de nutrientes, no ambiente hormonal, na carga mecânica exercida sobre o esqueleto e na massa muscular podem influenciar o metabolismo ósseo. Essas alterações muitas vezes acontecem silenciosamente, sem sintomas.

Para investigar essa questão, realizamos outro estudo, publicado recentemente na revista Obesity. Analisamos diferentes dimensões da saúde óssea de 39 pacientes entre dois a cinco anos após a cirurgia bariátrica e metabólica.

Um dos resultados mais interessantes foi que o exame convencional (densitometria óssea) não encontrou diferenças significativas entre os pacientes operados e o grupo controle em acompanhamento clínico. Porém, quando avaliamos os ossos com uma técnica mais detalhada, vimos alterações importantes em algumas características microscópicas de sua estrutura.

A diferença entre os resultados é importante porque a resistência de um osso não depende apenas da quantidade de mineral nele. Sua organização interna contribui para determinar sua qualidade e resistência. E a tomografia computadorizada quantitativa periférica de alta resolução (HR-pQCT) permitiu avaliar em três dimensões a densidade e a microarquitetura do osso.

Também observamos mudanças em biomarcadores relacionados ao metabolismo ósseo e níveis mais baixos de vitamina D. Isso indica maior atividade de remodelação — o processo de formação e reabsorção do tecido ósseo. A maioria dos pacientes não fazia suplementação de cálcio e vitamina D, o que reforça a importância do acompanhamento nutricional e laboratorial após a cirurgia.

Isso não significa que toda pessoa submetida à cirurgia bariátrica e metabólica desenvolverá osteopenia ou osteoporose. Nenhum dos participantes avaliados relatou histórico de fratura. O principal alerta é que nem sempre a balança ou mesmo um exame convencional é suficiente para entender o que está acontecendo no organismo.

E quando o peso volta?

Outra questão que costuma preocupar quem passa por esse tipo de procedimento é a recidiva da obesidade. Ela é relativamente comum ao longo dos anos, mas não deve ser interpretada simplesmente como sinal de que a cirurgia deu errado.

Em outros estudos nossos, avaliamos 30 a 40 pacientes submetidos a cirurgia bariátrica e metabólica há 11 anos. Mesmo entre aqueles que recuperaram uma quantidade expressiva de peso, parte dos benefícios metabólicos e inflamatórios da cirurgia permaneceu.

Em comparação com pessoas com obesidade e IMC semelhante que não haviam passado pela cirurgia, esses pacientes apresentaram menor glicemia e níveis mais baixos de triglicerídeos, além de maior HDL-colesterol. Também apresentaram um perfil inflamatório mais favorável, caracterizado por menores níveis de IL-6 e maiores níveis de adiponectina.

Por outro lado, entre pacientes que haviam interrompido o acompanhamento médico após a cirurgia, o maior reganho de peso esteve associado a piores indicadores de qualidade de vida e a maior frequência de comportamentos alimentares desordenados.

A atividade física também parece ter um papel importante. Em outro estudo do nosso grupo, o nível de atividade física foi avaliado objetivamente por acelerometria, com um sensor de movimentos. Os pacientes com mais de cinco anos de cirurgia e menor reganho de peso acumulavam mais atividade física de intensidade moderada a vigorosa e realizavam mais passos por dia. Já níveis mais baixos de atividade física e maior tempo sedentário foram mais frequentes entre aqueles com maior reganho de peso.

Em conjunto, esses achados reforçam que os resultados em longo prazo da cirurgia não dependem apenas do peso corporal, mas também do acompanhamento contínuo, do comportamento alimentar, da atividade física e de outros aspectos da saúde.

Uma pergunta para as próximas décadas

As cirurgias bariátricas e metabólicas modernas se consolidaram no final da década de 1980 e se expandiram a partir dos anos 1990. Como consequência, um número crescente de pessoas submetidas a esses procedimentos está chegando à terceira idade. Portanto, a pergunta que surge agora é: como essas pessoas envelhecem?

No serviço do SAI-Ob-HUPE-UERJ, estruturamos uma linha de pesquisa dedicada justamente a essa questão. Estamos estudando pessoas com 65 anos ou mais que passaram por bypass gástrico há pelo menos 10 anos. Vamos comparar esse grupo com idosos que vivem com obesidade e têm indicação para cirurgia e idosos com peso considerado normal. Estamos avaliando as doenças crônicas, função vascular, perfils metabólico e inflamatório, composição corporal, força muscular, desempenho físico, saúde óssea e qualidade de vida.

Essa perspectiva é especialmente importante agora que novos medicamentos passaram a produzir perdas de peso expressivas. As chamadas “canetas para emagrecer” abriram uma nova frente de tratamento. E, também, novas perguntas sobre os efeitos do emagrecimento ao longo da vida. Não se trata de estabelecer uma competição entre cirurgia e medicamentos. Cada abordagem tem indicações, benefícios, limitações e possíveis efeitos adversos e, em determinadas situações, elas podem ser complementares.

Ainda não temos, porém, tempo suficiente de acompanhamento para saber como as pessoas que usam esses medicamentos envelhecerão. É justamente aí que estudos longitudinais ganham importância. Ao acompanhar pessoas por muitos anos, podemos entender melhor o que acontece após uma expressiva perda de peso e estabelecer quais fatores estão associados a um envelhecimento com mais ou menos saúde e qualidade de vida, independentemente da estratégia utilizada para emagrecer.

Nossos resultados até agora mostram que o acompanhamento não pode se limitar ao número na balança. É preciso observar força e funcionalidade, saúde óssea, controle das doenças crônicas, alimentação e qualidade de vida. Exercícios físicos com resistência e acompanhamento nutricional também podem contribuir para preservar massa e força muscular ao longo do tempo.

À medida que a população envelhece e novas formas de tratar a obesidade surgem, entender essas diferentes trajetórias se torna essencial. O objetivo do tratamento não deve ser apenas perder peso, mas ajudar as pessoas a envelhecer com autonomia e qualidade de vida.

As pesquisas que alimentaram este artigo foram financiadas pela Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A divulgação deste artigo também contou com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Nível Superior (Capes).

Karynne Grutter Lopes recebe financiamento da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro – FAPERJ

Luiz Guilherme Kraemer Aguiar é bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq e Cientista do Nosso Estado da FAPERJ.

Alessandra da Rocha Pinheiro Mulder, Jorge Eduardo da Silva Soares Pinto e Paulo Roberto Falcão Leal não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que poderiam se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelaram nenhum vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.

Artigo publicado originalmente na The Conversation Brasil sob licença Creative Commons. O texto não foi alterado.

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