Agro cobra Lula após eleição e exige respostas para dívidas, juros e seguro rural
Entidades do setor rural apresentam prioridades diferentes para o novo mandato; bancada ligada ao agro promete diálogo, mas também fiscalização do governo

Encerrada a eleição, começa a cobrança. Após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), representantes do agronegócio e da agricultura familiar passaram a apresentar suas prioridades para os próximos quatro anos. As reivindicações incluem renegociação de dívidas, juros menores, ampliação do seguro rural, previsibilidade regulatória, equilíbrio fiscal e mais recursos para políticas públicas.
Apesar de o setor ter demonstrado preferência eleitoral por Flávio Bolsonaro (PL) em parte de suas lideranças, as entidades do agro não adotam uma posição única sobre a relação com o governo reeleito. Enquanto representantes da agricultura familiar defendem a continuidade de programas federais, entidades empresariais e produtores cobram respostas para problemas que afetam diretamente os custos de produção e a capacidade de investimento.
O desafio agora será transformar as reivindicações em medidas concretas, com orçamento, prazos e resultados que possam ser acompanhados pelo setor produtivo.
Agricultura familiar defende continuidade de programas
A presidenta da Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (Contag), Vânia Marques, considera a reeleição uma oportunidade para dar continuidade a políticas retomadas durante o governo Lula, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), a formação de estoques públicos e o Plano Safra da agricultura familiar.
Para o próximo mandato, a entidade reivindica mais recursos, fortalecimento da assistência técnica e extensão rural e a criação de um sistema nacional voltado à consolidação dessas políticas.
A demanda coloca no centro do debate a capacidade do governo de assegurar recursos suficientes para que os programas cheguem aos produtores e mantenham resultados ao longo dos próximos anos.
Produtores cobram renegociação de dívidas e seguro rural
No Rio Grande do Sul, o presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag-RS), Eugênio Zanetti, defende a revisão de medidas que, na avaliação da entidade, não apresentaram os resultados esperados.
Entre as prioridades estão a renegociação das dívidas rurais, a redução dos juros e o aperfeiçoamento do Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro).
Zanetti também aponta a baixa cobertura do seguro agrícola como um dos problemas enfrentados pelo setor. Segundo declaração atribuída a ele, menos de 10% da agricultura conta com algum tipo de seguro, índice considerado insuficiente diante dos riscos climáticos e financeiros da atividade.
A demanda é especialmente relevante para produtores que enfrentam perdas de safra, oscilações de preços e custos elevados de financiamento. Sem instrumentos adequados de proteção, prejuízos podem comprometer a capacidade de pagamento e o planejamento de novas safras.
Segurança jurídica e equilíbrio fiscal entram na pauta
A Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), presidida por Ingo Plöger, defende pacificação, diálogo entre os setores e planejamento de longo prazo. A entidade destaca a necessidade de previsibilidade para investimentos em infraestrutura, logística, financiamento e seguros.
A Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp), por sua vez, reconhece o resultado eleitoral, mas cobra responsabilidade fiscal, eficiência administrativa e segurança jurídica. Entre as prioridades apontadas estão a redução dos custos financeiros, o equilíbrio das contas públicas e a contenção de aumentos excessivos da carga tributária.
A Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT) também defende a redução dos juros e a segurança jurídica. A entidade propõe maior integração entre agricultura, indústria e energia, com incentivo aos biocombustíveis, além de relações comerciais pragmáticas com China e Estados Unidos.
Já a CropLife Brasil, que reúne empresas de sementes, biotecnologia, defensivos agrícolas e bioinsumos, destacou a importância da inovação, da pesquisa e da estabilidade regulatória para a competitividade do agronegócio.
As manifestações indicam que o setor espera regras previsíveis para investir, produzir e ampliar mercados. A cobrança, entretanto, vai além do discurso: depende de decisões sobre crédito, orçamento, tributação e regulamentação.
FPA promete diálogo e fiscalização
Na Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), a estratégia anunciada combina interlocução com o governo e fiscalização das decisões do Executivo.
Arnaldo Jardim, vice-presidente da frente na Câmara dos Deputados, defende a manutenção do diálogo independentemente das preferências eleitorais. Entre as pautas prioritárias, cita recursos para o Plano Safra, seguro rural e defesa sanitária.
As discussões sobre a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e a Lei Orçamentária Anual (LOA) serão importantes para definir os recursos destinados a essas políticas.
No Senado, a senadora Tereza Cristina, também vice-presidente da FPA, pediu que os apoiadores de Flávio Bolsonaro mantenham a mobilização e afirmou que a bancada de direita deverá fiscalizar o novo governo.
A postura sinaliza que o resultado das urnas não encerra a disputa política em torno do agronegócio. Para a bancada, a atuação parlamentar deverá envolver tanto a apresentação de propostas quanto a cobrança por medidas que atendam às necessidades dos produtores.
Até o fechamento do material de origem, o presidente da FPA, Pedro Lupion, não havia se manifestado sobre o resultado eleitoral.
O desafio será transformar cobranças em resultados
As demandas apresentadas pelas entidades mostram que o agronegócio não fala com uma única voz. A agricultura familiar prioriza a continuidade e o financiamento de programas públicos, enquanto produtores e organizações empresariais destacam dívidas, juros, seguro, tributação e segurança jurídica.
Para o governo Lula, o desafio será conciliar essas demandas em um cenário de restrições orçamentárias e interesses distintos dentro do próprio setor rural.
Para as entidades, a etapa seguinte será acompanhar decisões e cobrar respostas concretas. Mais do que manifestações após a eleição, o que estará em jogo será a capacidade de transformar reivindicações em crédito acessível, proteção contra perdas, regras estáveis e condições para manter a produção e os investimentos no campo.

