POLÍTICA NACIONAL
Defesa nacional deve ter prioridade no Orçamento, apontam debatedores
Publicado em
9 de setembro de 2025por
Da Redação
A involução nos investimentos e nos repasses públicos e o consequente impacto na capacidade de defesa nacional mostram que as Forças Armadas e a base industrial de defesa precisam de previsibilidade orçamentária. A afirmativa embasou a audiência pública sobre proposta de emenda à Constituição que destina anualmente pelo menos 2% do produto interno bruto (PIB) para o Ministério da Defesa. O debate foi promovido pela Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE) nesta terça-feira (9).
A PEC 55/2023 prevê que um mínimo de 35% dos gastos opcionais em defesa seja aplicado em projetos estratégicos para esse segmento da indústria brasileira, como em armamentos, veículos e tecnologias. De acordo com o Portal da Transparência, o Ministério da Defesa registrou, em 2024, R$ 112,25 bilhões em despesas pagas.
Autor da PEC, o senador Carlos Portinho (PL-RJ) disse que “temos visto um desinvestimento”, porque o orçamento para a defesa vem sofrendo cortes sucessivos e isso “não é exclusividade desse governo, já vem de longa data”.
— Mais até do que o valor do orçamento, o que essa proposta quer trazer e coloca em discussão é que haja uma previsibilidade orçamentária. Não é possível que o país desenvolva tecnologia, a sua indústria de defesa, construção de submarinos, embarcações, compra de aviões, sem que haja um mínimo de previsão no orçamento — disse o senador.
Portinho afirmou ainda que com potencial de defesa, se inibe que outras nações tenham outros interesses, que não a paz com o Brasil. O senador enfatizou que é preciso permitir que as nossas Força Armadas se planejem.
— Além do mais, há a possibilidade de a gente desenvolver novos produtos. A gente vê o mundo em guerra, a gente vê os drones. A guerra hoje na Ucrânia já evoluiu, é uma guerra de drones, e o Brasil podia estar liderando, porque nós temos conhecimento, nós temos uma indústria de defesa — complementou.
Por ser uma proposta de Estado, a relatoria da PEC, em tramitação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), foi concedida ao líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), que salientou que “a situação no cenário em que está, não pode continuar”.
— Nós temos, e isso não é uma questão de governo, mas uma questão de Estado brasileiro, uma continuada desvalorização dos recursos destinados a nossas Forças Armadas. Isso vem, pelo menos, desde os anos 1990, e tivemos um aprofundamento nos últimos anos. […] Estamos diante de uma circunstância colocada atualmente. Temos de deter a acentuada desvalorização, o sucateamento, a perda de recurso das nossas Forças Armadas, sobretudo porque estamos em um mundo cada vez mais belicoso — afirmou Randolfe.
Assim como os senadores Chico Rodrigues (PSB-RR) e Sergio Moro (União-PR), o senador Jorge Seif (PL-SC) declarou apoio à PEC. Ele afirmou que a proposta é uma decisão estratégica para a soberania e segurança nacional. Seif afirmou que, em 2023, o Brasil investiu 0,8% do PIB, enquanto a média global gira em torno de 1,98% do PIB.
— Cuidar do nosso território exige Forças Armadas modernas, equipadas e respeitadas. Fortalecer o orçamento das nossas Forças Armadas é acima de tudo respeito a esses homens e mulheres que cuidam especialmente das nossas fronteiras. […] Investir em defesa é investir em liberdade, paz e desenvolvimento — afirmou Seif.
General da reserva, o senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS) afirmou que nos últimos 30 anos as Forças Armadas têm vivido com muitas dificuldades.
— Faz parte da nossa visão estratégica a dissuasão, e dissuasão só existe se tivermos uma Força Armada devidamente equipada e adestrada. A dissuasão é fundamental para um país como o nosso, que não pretende projetar poder fora de nossas fronteiras, mas não pode admitir que essas fronteiras, sejam elas marítimas, aéreas ou terrestres, sejam violadas — expôs Mourão.
Para o senador Esperidão Amin (PP-SC), não tem cabimento um país como o Brasil não honrar os compromissos a médio e longo prazo com a defesa nacional.
— Resultado, as três Forças Armadas convivem hoje com expectativas complicadas. […] Essa reunião tem que apontar sim os riscos que estamos correndo, tanto em termos de Marinha, Aeronáutica e de Exército. […] O governo de plantão tem o compromisso de conduzir o seu turno com a informação das consequências de sua negligência, de sua desatenção ou de seu desvelamento da realidade — disse Amin.
Marinha
Com 7,5 mil quilômetros de litoral, o Brasil enfrenta ameaças ao longo da costa brasileira, com casos já registrados de sombreamento dos cabos marítimos (ameaça de interrupção), incidentes de poluição hídrica e trajetória de navio militar estrangeiro na costa. Para o Almirante de Esquadra Alexandre Rabello de Faria, diretor-geral de desenvolvimento nuclear e tecnológico da Marinha, hoje, “a nossa capacidade de defender o país em mundo cada vez mais conflituoso é questionável”.
— Por isso, nós saudamos essa PEC, que visa a defesa nacional, mas também uma visão muito importante e muito apropriada que é o desenvolvimento da nossa indústria de defesa e consolidação das nossas empresas no setor.
Para o almirante, o Brasil está destoante da realidade mundial, principalmente por ser um país, do ponto de vista econômico, muito importante no cenário global.
— Essas coisas, a meu ver, estão um pouco dissociadas, infelizmente. […] No caso do Marinha, nós tivemos, nos últimos dez anos, uma involução de orçamento de 62%. Isso traz consequências. E a consequência imediata é a redução da nossa quantidade de meios para defender o país.
Aeronáutica
A primeira grande consequência de ter investimento aquém do necessário para a manutenção da capacidade operativa é, segundo o chefe do Estado-Maior da Aeronáutica, tenente-brigadeiro do Ar Walcyr Josué de Castilho Araújo, a diminuição abrupta de 40%, nos últimos dez anos, da quantidade de aeronaves em condições de operar.
— Outra coisa é a quantidade de horas de voos que a Força Aérea voa anualmente. Nosso esforço aéreo, nós reduzimos ao longo desses dez anos em praticamente 50%. Na medida que temos menos recursos, nós não conseguimos voar essa quantidade de horas e nós temos naturalmente que fazer uma degradação na nossa capacidade operativa. Nossas aeronaves estão em piores condições e nossas tripulações ficam com treinamento sempre aquém daquele que nós temos por ideal — expôs o chefe da Aeronáutica.
Diante dessa realidade, a Aeronáutica tem assistido evasão de seus pilotos, “que entenderam que teriam condições melhores para manter suas atividades aéreas se estivessem voando na aviação comercial”, o que tem resultado em casos de pedido de demissão da Força Aérea.
A Aeronáutica tem projetos estratégicos que tem por objetivo substituir equipamentos que estão no limite do tempo de vida e que funcionam como investimento da FAB ao alcance de missões, segundo o tenente-brigadeiro.
— Falamos da necessidade de adquirir armamentos, mísseis, drones — que é vital para que a Força Aérea esteja a altura de enfrentar os novos desafios tecnológicos —, investimento em artefatos ligados ao espaço, dos satélites, das nossas bases de lançamento e, claro, da nossa aeronave de caça, de transporte — disse Araújo.
Exército
Chefe do Escritório de Projetos Estratégicos do Exército, o general de Divisão Everton Pacheco da Silva enfatizou que “cada real investido em defesa gera retorno para a economia, gera retorno para o Brasil”. O Escritório trabalha com 73 projetos, dos quais um terço não foi iniciado por falta de recursos, segundo o general. Alguns tem previsão de recursos para 2026 e os realmente implantados são apenas 26.
— O pouco recebimento de recursos implica aumento daquilo que foi previsto, que foi discutido entre os nossos contratos e com a base industrial de defesa vai ser estendido, provavelmente, em anos. […] A PEC da previsibilidade é extremamente importante para nós. A previsibilidade e o montante adequado de recursos — expôs o general.
Indústria
Presidente da Indústria de Material Bélico do Brasil (Imbel), o general de Divisão Ricardo Rodrigues Canhaci chamou atenção para a interseção entre as três Forças Armadas quanto ao fato de a redução orçamentária provocar aditivos na execução das compras, diante de projetos estratégicos que são sucessivamente postergados o que, consequentemente, impacta na indústria.
— Nós temos que garantir a sustentabilidade econômica e financeira da empresa e a sua longevidade. E quando nós estamos tratando de equipamentos e produtos de defesa, a longevidade é fundamental porque temos de garantir o ciclo de vida desses equipamentos, por 10, 20, até 40 anos. Se a indústria não sobrevive ao tempo, as Forças ficam sem poder manter essa estrutura tão cara, tão dispendiosa, que foi construída pelo país — disse Canhaci.
Vice-presidente de Contratos da Empresa Brasileira de Aeronáutica (Embraer), Fábio Henrique Caparica Santos destacou que mais de 60 forças armadas e governos utilizam os produtos da empresa, que além da aviação comercial e executiva, atende a defesa e a segurança. No Brasil, a Embraer atende a FAB, com o KC-390, o A-29 Super Tucano e o F-39 Gripen; o Exército com programa Radares e a Marinha com fragatas Tamandaré.
— O encaminhamento desses projetos está altamente dependente da questão orçamentária e anualmente nós trabalhamos, enquanto base da defesa, nesses projetos, junto com as Forças, no desafio de compatibilizar os cronogramas, os contratos, com o orçamento disponível e fazer com isso, o melhor encaminhamento — afirmou Santos.
Segundo o diretor comercial da Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC), Paulo Ricardo Gomes, há que se torcer para que a PEC passe “pois os contratos plurianuais de fornecimento de insumos trazem uma redução extremamente grande ao custo do produto e à capacidade de compra de todas as Forças”.
A audiência também teve a participação do diretor de Relações Institucionais de AEL Sistemas, Sebastian Wantenberg; do representante de Empresa Brasileira Helibras/Airbus Helicopters, Bruno Schweter, dos diretores da Naval Group, na América Latina e no Brasil, Laurent Mourre e Nicolas Viala; do diretor de Operações da Condor Tecnologias Não Letais, Luiz Cristiano Valim Monteiro; do presidente do Grupo Empresarial Thyssenkrupp América do Sul, Paulo Alvarenga e do presidente da Stella Tecnologia Industria e Comercio Aeroespacial, Gilberto Buffara Junior.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
POLÍTICA NACIONAL
Senado fará debate sobre escala 6×1
Published
2 horas agoon
27 de maio de 2026By
Da Redação
O Senado fará uma sessão temática para debater os possíveis impactos sociais e econômicos da PEC 221/2019, proposta de emenda à Constituição que determina o fim da chamada escala de trabalho 6×1 (seis dias de trabalho para um de descanso).
O requerimento para a sessão temática (REQ 414/2026) foi aprovado nesta quarta-feira (27) em Plenário.
O requerimento foi assinado pelos seguintes líderes da Casa:
- Dr. Hiran (PP-RR), do Bloco Parlamentar Aliança (PP e Republicanos);
- Wellington Fagundes (PL-MT), do Bloco Parlamentar Vanguarda (PL, Novo e Avante);
- Weverton (PDT-MA), do Bloco Parlamentar pelo Brasil (PT e PDT);
- Professora Dorinha Seabra (União-TO), do Bloco Parlamentar Democracia (MDB, União Brasil, Podemos e PSDB).
A PEC 221/2019 ainda está em tramitação na Câmara — já foi aprovada em uma comissão especial e, no momento da publicação desta matéria, estava em discussão no Plenário daquela Casa. Se for aprovada pelos deputados, virá ao Senado.
Para os líderes, a sessão temática no Senado pode promover uma discussão ampla do tema.
Conforme o requerimento aprovado, “a iniciativa contribuirá para ampliar a compreensão sobre os impactos da eventual alteração constitucional, subsidiando o Parlamento na construção de soluções equilibradas, socialmente responsáveis e economicamente sustentáveis para o mercado de trabalho brasileiro”.
A data da sessão ainda será marcada pela Mesa do Senado.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
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